A não-masturbação

“O Grande Masturbador” – Salvador Dalí (1929)

A masturbação é uma prática inerente à experiência sexual humana. É um ato de autodescoberta e de prazer importantíssimo para o desenvolvimento da nossa intimidade física e psicológica., Contudo, o seu significado e as crenças que a rodeiam, têm variado drasticamente consoante os mais diversos contextos históricos, sociais, políticos e religiosos, mas sobretudo sobre quem o faz, porque o faz e quando o faz.

Neste mês, o fenómeno do No Nut November (Novembro sem ejacular), um desafio que surgiu em 2010 entre a comunidade de abstinência No Fap e “explodiu” (trocadilho intencional) a partir de 2017 nas redes sociais um pouco por todo o mundo, foca-se de forma quase exclusiva na experiência de masturbação masculina e, quanto a mim, por razões importantes para se compreender o pensamento masculino atual.

Numa época em que o acesso ao sexo e ao consumo da nudez (sobretudo feminina) nunca foi tão fácil e barato (quantos homens poderosos, reis ou sultões do passado conseguiram satisfazer o seu desejo de ver corpos nus diante dos seus olhos com um jovem comum dos dias de hoje com um simples telemóvel?), este “desafio” de abstinência orgásmica durante 30 dias. centra a discussão não apenas na questão sexual, mas sobretudo no âmbito da disciplina mental e física, do foco emocional e, acima de tudo, do controlo sobre o desejo e os impulsos.

Quando a atual oferta maciça de conteúdos sexuais se conjuga com a exigência de barreiras como o consentimento e a volatilidade das relações afetivas atuais, o próprio nome “nut” (que significa “ejaculação” e também “testículo”) reflete uma preocupação específica sobre a sexualidade masculina e as suas consequências, tanto para si próprios como nas relações com os outros..

E porque é que isso é importante?

Quando olhamos para o ato de masturbação notamos diferenças drásticas entre homens e mulheres. Enquanto o orgasmo masculino está intimamente ligado à ejaculação e tem uma função reprodutiva clara, o orgasmo feminino não tem essa ligação direta e é, frequentemente, mais complexo e multifatorial, tanto em termos de causas como de efeitos.

Assim, a masturbação feminina tende a ser uma via altamente fiável para o prazer e adquire um propósito que vai além da simples “liberação”, tornando-se uma ferramenta de autodescoberta e satisfação pessoal independente e, amiúde, empoderadora.

No caso dos homens, a masturbação raramente é vista como uma ferramenta de autodescoberta. Ao começarem muito mais cedo a ter contacto direto com o pénis (quando urinam, quando se lavam, quanto têm ereções – desejadas ou indesejadas), os rapazes começam também mais cedo a perceber que a masturbação é um ato que pode ser meramente libertador de tensão (e as hormonas – no caso, a testosterona – contribuem em muito para essa tensão e para a necessidade de a libertar), ou algo que, por ser tão “mecânico” e imediato, se pode tornar compulsivo e até viciante.

Para além disso, é também sabido que grande parte dos homens não se masturba pelo prazer de explorar o seu corpo, mas sim pelo incentivo externo e auxiliar da pornografia. Esse incentivo, resulta não só numa masturbação afastada dos sentimentos e emoções do próprio corpo, mas sobretudo num desfasamento com a realidade, com os outros e consigo mesmo, o que muitas vezes causa profundas depressões e vergonhas.

Não é de estranhar, portanto, que muitos homens se revejam e aceitem este tipo de desafios. Não por concordarem absolutamente com a abstinência, mas porque é uma prova que dão a si próprios de autodeterminação e de que ainda conseguem controlar os seus impulsos, o seu corpo e o mundo à sua volta.

E sim, a ideia de “controlo” é, de longe, o mais importante conceito da sexualidade masculina. Sobretudo o autocontrolo. Tanto homens como mulheres sabem que a capacidade de autocontrolo é fundamental para que um homem saiba o que fazer, quando fazer e como fazer, tanto no prazer que recebe como, e principalmente, no que dá. É a capacidade de autocontrolo que fortalece não só a interação, mas também a ereção, a ejaculação e até a recuperação refractária. E fora do sexo, é também o autocontrolo que evita a reação, a obsessão, o descontrolo e a violência.

Neste sentido, tenho falado com alguns homens (sozinhos ou em relacionamentos) que aceitaram este desafio do No Nut Nov, com mais ou menos sucesso. Para uns, a dificuldade da solidão (mesmo numa relação), o peso da depressão ou a constante instigação de conteúdos sexuais ali à mão, tornaram a tensão demasiado árdua para poder ser gerida. Essa tensão, resultava muitas vezes em dificuldades de gerir as emoções, redirecionando-a para outras atitudes compulsivas, como comer, beber, fumar, drogar-se. O risco tornou-se maior que o desafio, por isso acabaram por escolher o alívio da masturbação.

Mas para outros, sozinhos ou acompanhados, a ideia despertou novas possibilidades, não só de desviar a energia contida para tarefas mais compensatórias, como trabalho, hobbies, desporto, sair mais de casa ou simplesmente dedicar-se mais à família, como também de fazer um “detox” das mil e uma influências externas de prazer para se focar no seu, sem necessariamente ter o orgasmo como único objetivo.

Por tudo isto, mais do que uma simples piada ou preocupações médicas que um mês sem ejacular pode despertar (by the way, não faz nem bem nem mal, apenas a abstinência de longo prazo pode ter efeitos nocivos para a próstata), este “Novembro sem ejacular” pode ser mesmo uma oportunidade de se abordar o tema da masturbação (e da sexualidade masculina no geral) de uma outra forma mais responsável, criativa, consciente e, acima de tudo, construtiva. 🔥

Tens curiosidade em saber mais? Marca uma consulta de Erotic Coaching.

Sem respostas

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Comentários recentes

  1. Entendo e concordo uma vez mais com a sua análise, que, pelo conhecimento que tem, consegue ser muito mais abrangente…

  2. Compreendo e até concordo com alguns dos pontos. A minha perspectiva baseou-se numa análise não só enquanto público mas também…