
Temos tendência para achar que algo não está muito certo quando uma coisa se define apenas por oposição a outra coisa. No caso das “não-monogamias”, o debate (que não é novo) tem assumido ultimamente um teor cada vez mais político (e não apenas social), contra a ideia da monogamia, evocando-a como um sistema opressivo, imposto por entidades e instituições de poder diversas e que nada tem a ver com a “natureza humana”.
Ora, se há algo que tem a ver com tudo e o seu oposto, é a natureza humana. Se há algo que é incerto e imprevisível é exatamente a natureza humana. Na verdade, o ser humano procura muitas vezes contrariar a sua própria “natureza”, não por necessidade ou lógica, mas por curiosidade e experimentação, o que tem, com a mesma frequência, resultados maravilhosos ou catastróficos. E a linha que os distingue é assombrosamente ténue.
A não-não-solidão
Sabe-se que o ser humano pode existir sozinho, isolado do mundo, seguindo a sua natureza mais primária e sobreviver apenas baseado nela (satisfazendo as necessidade básicas de comer, dormir e defecar, sem que ninguém o chateie nem chatear ninguém – excepto o ocasional animal que teria de ser morto para ser comido). Mas o que não conseguiu fazer ao longo da história da humanidade, foi co-existir com outros seres humanos seguindo apenas os seus instintos e impulsos primários e individuais.
Exatamente devido à sua volatilidade, a natureza humana sempre travou batalhas consigo mesma, na busca de um equilíbrio entre as emoções e o intelecto, as características inatas e o conhecimento adquirido, as vontades fundamentais e as responsabilidades, os direitos e os deveres, a ideia de individualidade e de comunidade, a necessidade de liberdade mas também de regras, a ambição das causas e o medo das consequências, o conservadorismo saudosista e o liberalismo anárquico, o ying e o yang, a escuridão e a luz, e todas as outras dualidades (sim, porque mesmo num espectro há sempre dois extremos), muitas vezes paradoxais, com as quais tivemos de conviver desde o princípio dos tempos e da nossa vida.
Curiosamente, apesar de parecer que estas questões morais só afetam os humanos, nós não somos os únicos a lidar com este tipo de dilemas. A única diferença é que os humanos desenvolveram o pensamento filosófico, a política, a ciência e a religião, que questionam e reformulam as próprias questões, e os restantes animais usam métodos mais pragmáticos, que aos nossos olhos podem parecer violentos e cruéis, para resolver as suas disputas internas e externas.
A não-não-complacência
Ao complexificarmos os nossos contextos e estruturas sociais, fomos também levados a repensar as fórmulas das nossas relações pessoais. Nesse sentido, o questionamento “moral” que o ser humano sempre fez da realidade e do seu papel nela, levou à criação de inúmeras estratégias de organização familiar e, por consequência, social, que deram origem às mais diferentes visões do que devem ser as relações pessoais e afetivas nas mais diversas épocas e nos mais diferentes lugares do planeta.
Tudo isso deu origem a diferentes estruturas familiares, seja em pequenas sociedades comunitárias, seja em grandes sociedades imperiais. Ou seja, as não-monogamias não são uma invenção dos tempos modernos, são apenas um re-questionamento das nossas ambições pessoais mais primárias. Um questionamento que advém das possibilidades tecnológicas que hoje permitem manter relações próximas à distância, permitem um contacto direto e imediato com pessoas que nem sempre estão presentes no nosso quotidiano e que, sobretudo, facilitam a multiplicidade de conexões que permitem maior desapego de um indivíduo a outro indivíduo exclusivamente.
O que esta nova realidade está cada vez mais a possibilitar, é a a ideia de que, na verdade, a não-monogamia não é a capacidade de vivermos com várias pessoas, mas sim a capacidade de vivermos sozinhos e independentes, exatamente porque podemos ter contacto com várias pessoas a qualquer momento. As impossibilidades de gestão de tempo e distância de outrora, estão hoje a ser colmatadas por esta conectividade global e constante.
A não-não-condição
Mas a dúvida que surge no debate público, e que surge muitas vezes nas minhas consultas privadas, é esta: a luta pela liberdade é uma aventura entusiasmante, sem dúvida, mas quando se conquista a liberdade muito poucas vezes se sabe o que fazer com ela. Quando as possibilidades parecem infinitas e se acrescenta a infinitude de incentivos constantes de outras vidas (o que são as redes sociais senão um cardápio de universos alternativos?), qualquer decisão ou qualquer escolha parecem limitadas e limitadoras de tudo o resto.
O vazio que se gera quando nada nos pertence e não pertencemos a nada, é o oposto da ideia de conexão que nos motiva a querer tudo. Por isso é que, nos dias de hoje, talvez a definição de “não-monogamia” seja mesmo a melhor forma de descrever algo que, mais do que ser, não o é.
No entanto, a grande virtude desta não-definição não é sua possível transformação em algo definido. É exatamente provocar o auto-questionamento que nos obriga a fazer, sobre outro dos grandes dilemas da humanidade: ter/ser porque queremos ou porque precisamos. 🔥
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2 Respostas
Grande reflexão, gostei de ler!
Muito obrigado pelo comentário!