
Confesso que nunca li Baudelaire. Nunca peguei num livro seu, até porque a poesia seja talvez a forma de arte que mais tenho dificuldade em apreciar. Talvez porque, na minha juventude, a poesia tenha sido o meu primeiro refúgio de exorcismo verbal, e que por isso tenha assumido que a manifestação poética provém de alguma volatilidade emocional e racional, o que me afasta um pouco desse universo tão pessoal e íntimo nos outros. Os versos que escrevia nessa altura, arrebatados por paixões, dor e amargura, depressa se transformaram em prosas poéticas, quebrando estruturas e métricas, e mais tarde num estilo de escrita a que chamei “dementista” (um dia falarei mais sobre esse tema), e que me levou a toda um questionamento sobre a palavra, o seu significado, a sua utilidade e até o seu valor na forma como racionalizamos sentimentos, pensamentos e paradoxos.
Por essa razão, poucos foram os poetas que li ao longo da vida e ainda menos os que consegui apreciar. Reconheço, no entanto, que a poesia consegue, quando me toca, levar-me a estados de alma e introspeções que pouca prosa consegue. Reconheço o valor e a habilidade de traduzir em poucas palavras a abstração dos sentimentos e das emoções, através dos mais variados recursos estilísticos, linguisticos e gramaticais.
Dito isto, apesar de nunca ter lido um livro de Baudelaire, li muito sobre ele e, sobretudo, vi pelo menos três apresentações teatrais (incluindo uma opereta) da sua obra mais famosa “As Flores do Mal”. E claro que este interesse partiu sempre de compreender como, tanto a obra como o autor, contribuíram para uma reflexão sobre a sexualidade e o erotismo.
Resumidamente, “As Flores do Mal” foi uma obra disruptiva na altura da sua edição (França, 1857), onde a linguagem poética de Baudelaire trouxe uma abordagem mais realista sobre diversas temáticas da vida quotidiana e, acima de tudo, do vida boémia francesa, desligando-se do romantismo e do lirismo que até então imperavam na literatura. Obra censurada e autor levado a tribunal, é talvez a sua obra mais conhecida e foi através dela que cheguei até ele.
Já Bernard Hislaireo (Yslaire) artista belga e autor deste “Menina Boudelire” (no original “Madmoiselle Boudelaire”), já me tinha chamado a atenção com a sua coleção “Sambre”, sobretudo pela sua arte muito livre e recheada de técnicas diversas de desenho e pintura, que apreciei de passagem em algumas livrarias, mas que também ainda não tinha na minha biblioteca.
Foi então com esta base informativa que, no Festival de BD da Amadora deste ano, ao passar os olhos por este livro, não resisti em saber mais sobre o universo destes dois autores.
E que boa decisão tomei!

Com uma narrativa gráfica que cativa logo a partir das primeiras páginas, sem diálogos, apenas com desenhos magníficos e simbólicos que enchem as folhas e os olhos, somos levados a seguir numa viagem guiada pelas palavras de uma personagem “mítica” da vida de Baudelaire, uma musa exótica que viveu ao lado do poeta maldito e partilhou com ele os altos e baixos da sua carreira e da sua intimiadade.
Através de uma estrutura epistolar, Yslaire inspira-se nos pensamentos dessa “vénus negra” que terá inspirado a escrita das “Flores do Mal”, para mostrar as vicissitudes da época de meados do séc. XIX, numa França ainda centrada em si mesma como epicentro cultural do ocidente, onde artistas, intelectuais e políticos se digladiavam com ideias, egocentrismos, tentações, excessos, espíritos revolucionários e se entregavam à violência das palavras, dos atos e dos abusos, que resultavam abundantemente em vidas intensas, decadentes e curtas.
Baudelaire não foi excepção.

Assim como a arte do poeta, este livro prima pelo realismo sem nunca esquecer o belo. Explícito e carregado de fervor sexual, esta obra abre espaço para conhecer o homem Baudelaire, através dos olhos daquela que (supostamente) o amou e odiou, o desejou e o usou, o inspirou e o castrou, A mulher exótica e erótica que arrebatou atenções, invejas e intrigas, e que, no final, conseguiu renascer da escuridão (literalmente) que sempre a amaldiçoou, pelas linhas de um pintor que a tornou imortal num quadro famoso, mesmo debaixo de um véu de vergonha e censura.
Um fenómeno que, a ser mesmo real, contribui em muito para que a metáfora desta história seja deveras transcendental.

Um livro marcante, que me despertou muito interesse em conhecer um pouco mais sobre todos os envolvidos.
Avaliação: 🔥🔥🔥🔥 (4/5)
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