Restaurante Lingerie (Lisboa)

Conheço o Lingerie de Lisboa desde o ano em que abriu, em 2017 e já lá fui diversas vezes. Com um conceito provocador e, ainda assim, divertido, está localizado numa zona central da cidade e apresenta uma decoração adequada ao ambiente, que se quer sensual, a puxar ao glamour, com candelabros e paredes revestidas com imagens sedutoras e tons densos. Sempre com bom ambiente, descontraído e apto para boas noite de festa e diversão, é um espaço que tem sabido expandir a sua oferta para além do simples “jantar com strip e empregados semi-nus”, e incluído uma estimulante diversidade de sugestões de performances, que vão do cabaret ao burlesco, o que reflete um investimento em variedade e relevância em termos de cultura erótica.

Não é por isso de admirar que o Lingerie tenha conseguido tornar-se um franchising, desde o seu começo em 2007 no Porto, (apesar da sua génese ter sido em 2004, em Santa Maria da Feira), e agora também em Coimbra e Braga, o que o tem tornado numa marca cada vez mais relevante neste mercado.

As experiências que tive nas várias visitas que fiz foram bastante consistentes em termos de satisfação. Seja em grupos grandes ou pequenos, o ambiente e o serviço propiciaram sempre boa disposição, provocação e até excitação entre os convidados. A comida, seja em que menu for, é também bastante consistente em termos de qualidade e apresentação, havendo ainda uma possibilidade de incluir várias bebidas.

Os valores dos menus são bastante aceitáveis, tendo em conta a qualidade da comida, todo o ambiente e os shows que fazem parte da experiência.

Contudo, das várias vezes que visitei este restaurante, notei uma diferença bastante grande entre o ambiente dos dois horários de sitting, o primeiro cerca das 20h e o segundo cerca das 22h.

Compreende-se que, no segundo horário, tanto o público que entra (e que ainda se cruza com o anterior), como os empregados, como os próprios artistas e até os chefes de sala, já estejam mais disponíveis e descontraídos, mas quem chega para o primeiro turno, e sobretudo se a casa não estiver bem composta ou com grupos que façam a festa por si (como despedidas de solteiro/a, festas de aniversário, etc), sente-se um “frio” no ar que leva tempo a mudar quando quem está no espaço não estão disponível ou informado para quebrar esse gelo e começar a “aquecer” o público.

E isso nota-se que muda consoante quem está a gerir ou a trabalhar no espaço. É certo que neste tipo de ambientes, a tentação, tanto de quem trabalha como de quem visita, para “esticar a corda” e testar os limites do “aceitável” pode contribuir para situações de abuso ou descontrolo de parte a parte quando se dá demasiada confiança ou atenção. Mas se há coisa que garante que qualquer pessoa, por muito tímida ou extrovertida que seja, tenha uma boa experiência, é exactamente ter pessoas a trabalhar que saibam identificar os momentos certos para estimular o público quando este está mais fechado, da mesma forma que consegue amenizar e gerir a energia da sala quando alguém está mais desequilibrado.

De todas as vezes que fui, isso foi conseguido (com mais ou menos restrições da gerência) mas, da última vez, notei que o público do primeiro turno só começou a ser “oficialmente” recebido quando a hora certa tocou e o “mestre de cerimónias” saiu de trás da cortina. Sem um pré-aquecimento, quando ele começou a tentar incentivar pessoas para irem ao palco dançar no varão e tirar fotografias, só duas ou três aceitaram e com alguma relutância.

Noutras ocasiões, todas as pessoas de serviço tinham uma abordagem mais calorosa às mesas desde a chegada, o que despertava desde logo uma outra energia mais descontraída e aberta a um espaço ainda vazio.

A acrescentar a isso, a seleção musical é também outro factor que ajuda a colocar as pessoas no mindset certo, mas que desta vez focou-se repetidamente em música tecno, numa sala de mesas sentadas, onde as luzes ainda estavam muito claras, contrastando com o ambiente clássico e sedutor que tanto a decoração como o conceito do espaço pretendem sugerir.

Outra característica do Lingerie é o uso de placas nas mesas para aceitar a aproximação e interação dos artistas com o público durante os shows. Verde para sim e vermelho para não. Um sistema que poderia até funcionar bem se houvesse a atenção dos artistas para perceberem exatamente quais são todas as mesas onde a placa verde está (o que, acredito, seja dificultado pela interferência da luzes do show) e onde quem mantém o sinal verde tem nitidamente a intenção “ativa” de ter uma experiência concreta de interação com os performers, o que muitas vezes acontece apenas nas mesmas mesas, aquelas que estão mais próximas do palco. Outra atitude que também vi ser diferente com diferentes performers, mas que devia ser algo que fizesse parte das regras da casa, ou pudesse ser falado entre os artistas (por exemplo, cada um definiria a sua área de interação na sala antes do show).

Finalmente, outra particularidade que foi mal aproveitada (desta vez) e que contribui em muito para o espaço mas sobretudo para os artistas, é a venda de notas para gratificar os performers durante os shows. Nesta última visita, essa venda só foi feita antes da última apresentação, o que evitou que os primeiros artistas pudessem ser gratificados, e que essa pudesse também ser uma forma de chamar a atenção dos artistas para as mesas com sinais verdes noutras zonas da sala. Isso acabou por contribuir que as gratificações fossem quase todas para os empregados de mesa em vez de poderem ser distribuídas por todos de igual forma.

Mas fora estes pequenos detalhes, a experiência no Lingerie é sem dúvida positiva e recomendável. Num conceito que depende tanto das pessoas que lá trabalham, sempre que lá fui, desde a recepção ao serviço de mesa e mesmo os próprios artistas, todos são de uma simpatia e disponibilidade extraordinárias (não andassem em cuecas e lingerie no meio de estranhos) e tanto os shows como a experiência gastronómica são de uma qualidade muito acima da média.

Agora só me falta saber se nas outras cidades é tão bom ou melhor.

Avaliação: 🔥🔥🔥🔥 (4/5)

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Comentários recentes

  1. Entendo e concordo uma vez mais com a sua análise, que, pelo conhecimento que tem, consegue ser muito mais abrangente…

  2. Compreendo e até concordo com alguns dos pontos. A minha perspectiva baseou-se numa análise não só enquanto público mas também…