
Tentar aprender sobre as virtudes do prazer (sobretudo sexual) é como tentar aprender sobre a vida em geral: podemos adquirir todo o conhecimento teórico do mundo, mas nada sabemos até o experienciarmos empiricamente. O conhecimento teórico é um valioso utensílio a que recorremos para nos prepararmos para possíveis eventualidades, mas se há algo que a realidade humana gosta de comprovar repetidamente é que ela nem sempre se rege por regras ou determinações lineares ou lógicas.
Se o simples conhecimento teórico fosse o segredo para a salvação da humanidade, todos já teriam chegado às mesmas conclusões, criado as mesmas regras e leis, e nunca ninguém arriscaria fazer nada fora dos trâmites definidos (e definidos por quem?). Mas, como foi (e continua a ser) demonstrado vezes sem conta ao longo da nossa história, mesmo quando se sabe muito (e, por vezes, até exatamente porque se sabe), há sempre alguém que arrisca confrontar a razão, desafiar o convencional e ultrapassar limites.
E isso é, quanto a mim, a verdadeira definição do “saber que nada se sabe”.
Mais do que admitirmos a nossa ignorância, é vivermos com o noção que o mundo e a realidade são muito mais amplos, indefinidos e surpreendentes do que alguma vez alguém poderá conseguir saber na sua certeza científica, aceitando-se que a realidade é acima de tudo composta por mais dúvidas do que por certezas.
Fazendo a ponte para o universo da sexualidade e do erotismo, o meu interesse por este ponto das “dúvidas sobre as certezas”, prende-se com a experiência da partilha de conhecimento, tanto teórico como empírico, seja em contexto de consulta como a nível pessoal, que tem proporcionado os mais fascinantes resultados.
Na procura de saber sempre mais sobre estes temas, dedico grande parte do meu tempo a ler não só publicações científicas mas também ensaios filosóficos, obras de ficção, poesia, artigos de opinião, entre outras fontes, como documentários, filmes, peças de teatro, performances, etc, no sentido de tentar compreender a sexualidade e o erotismo não apenas da perspectiva demonstrativa e analíticas, mas também (e acima de tudo) da perspectiva do “utilizador”, de quem ama, sente, deseja, fantasia, sonha e, na verdade, fode, Nesse sentido, apesar das vastas referências científicas, teorias filosóficas e até concepções espirituais que possam alimentar uma conversa sobre estes temas, a realidade de cada pessoa tende fortemente a sobrepor-se geralmente aos conceitos abstratos. Sobretudo quando o tema implica uma relação com alguém.
No processo de ajudar alguém a descobrir o caminho certo para o seu prazer, mesmo com todas as informações à sua disposição, o que define o sucesso dessa descoberta é a capacidade de fazer as escolhas certas no dia a dia. Quando, onde, como, com que determinação e com que intencionalidade física e mental, são factores cruciais que tendem a “ensinar” mais sobre a verdade de cada um do que as meras informações ou sugestões. As consequências dessas escolhas e as ações que as acompanham, criam novas interpretações dessas informações e novos critérios de escolha no futuro, que reforçam positivamente ou negativamente cada próxima decisão.
Ou seja, não é apenas o saber que define o conhecimento, mas é sobretudo a sua aplicação na realidade e a gestão das suas consequências.
E essa é, na verdade, a essência do desenvolvimento humano, seja a nível sexual ou existencial.
A aquisição, partilha e, sobretudo, a aplicação do saber, é o que nos faz consolidar ou duvidar do conhecimento que adquirimos e criar aquilo que, para cada um de nós, é o nosso verdadeiro saber. Por isso é que, mesmo com os mais variados estudos e análises feitos sobre a sexualidade humana, há sempre variantes e indefinições que revelam a sua verdadeira riqueza e complexidade, que pode variar não apenas entre pessoas, mas nos vários momentos da vida íntima dessas mesmas pessoas. Na sexualidade há sempre margem para descobertas e experimentações. Nunca nada é 100% verdade, nem se deve esperar que seja. E no universo imaginativo e criativo do erotismo, as certezas são ainda menos.
A realidade experienciada é melhor compreendida.
O conhecimento teórico, mesmo quando consistente e esclarecido, deve servir apenas como um guia, muito mais útil para o subconsciente do que para o pensamento ativo (exemplo: o conhecimento da anatomia humana não significa o conhecimento da anatomia de todas os humanos). Da mesma forma, a importância de uma formação cultural que abranja diversos pontos de vista através de manifestações artísticas pessoais, cria a possibilidade de “viver” diferentes experiências, reais ou imaginárias, de forma indireta, o que contribui para a construção de uma base empírica de conhecimento, sem a gravidade das consequências “reais”.
Em suma, o saber enfatiza o prazer, no sentido em que o integra em algo maior do que apenas um breve momento. Enquanto o prazer pelo prazer é muitas vezes um subterfúgio fútil e o saber pelo saber pode ser um poço sem fundo, o saber pelo prazer é fundamentalmente uma arte, onde a curiosidade e a criatividade abrem espaço à experimentação e à descoberta, e onde os medos, os erros, os desafios e o desconhecido, podem contribuir para que esse saber seja ainda mais genuíno e construtivo. 🔥
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