
O amor romântico, tal como o entendemos hoje (um sentimento intenso, expontâneo e muitas vezes avassalador), é uma construção cultural relativamente recente. Durante a maior parte da história humana, o casamento não dependeu de sentimentos mas sim de objetivos pragmáticos: segurança pessoal, alianças políticas, consolidação de património, trocas comerciais ou garantia de legado familiar.
Para além disso, o amor romântico que celebramos no Dia de São Valentim (ou Dia dos Namorados) não nasceu de um sentimento inocente e puro. Nasceu de rituais eróticos e desejos proibidos.
Orgias, santos e o amor cortês
No Império Romano, o festival pagão Lupercalia (13-15 de fevereiro) celebrava a fertilidade com uma intensidade feroz: animais eram sacrificados e os homens corriam nus pelas ruas, chicoteando pessoas com peles ensanguentadas, para expurgar os maus espíritos e potenciar a fertilidade. Era uma histeria de excitação coletiva, purificação e abundância sexual.
No século V, a igreja tentou “cristianizar” estas tradições ao fixar o dia de São Valentim em fevereiro. E porquê São Valentim? Segundo a lenda, no século III, o imperador romano Cláudio II proibiu casamentos entre jovens por acreditar que os homens solteiros eram soldados mais ferozes, sem laços familiares que os enfraquecessem. O padre Valentim (ou bispo de Terni) desobedeceu ao imperador e realizou uniões secretas para proteger os amantes,, um ato de rebeldia erótica contra o poder estatal, que valorizava a paixão proibida e o desejo carnal como forma de resistência à inevitabilidade da guerra e da morte. Preso e decapitado por volta de 270 d.C.,, Valentim tornou-se então mártir e símbolo do amor clandestino.
Mais tarde, na Europa medieval do século XII, enquanto os casamentos ainda serviam para unir terras e fortunas e o desejo pessoal era secundário ou até perigoso, começaram a surgir no sul de França os primeiros trovadores que, através das suas canções, inventaram o amor cortês (courtly love ou fin’amor). Poetas como Guilherme IX da Aquitânia (avô de Leonor de Aquitânia) e Bernart de Ventadorn, cantavam um amor idealizado: o cavaleiro servia uma dama elevada, muitas vezes casada, com devoção absoluta, sofrimento doce e adoração distante. Este amor era erótico e espiritual, mas raramente consumado — e quase nunca ligado ao casamento.
O erotismo romântico
Os trovadores separaram o amor romântico do matrimónio. A paixão verdadeira florescia fora do dever conjugal, com a dama como “senhora” (midons) e o amante como servo humilde. Influenciados por contactos com o mundo islâmico (via Cruzadas) e pela devoção mariana, criaram um código que exaltava o desejo como elevação moral. Leonor de Aquitânia, rainha de França e depois de Inglaterra, patrona de trovadores e cortes de amor, ajudou a espalhar estas ideias pela Europa.
Este modelo revolucionou a perceção do amor: pela primeira vez os sentimentos importavam mais do que alianças. No século XVIII, com o Iluminismo e o individualismo, o casamento por amor ganhou força, com jovens a fugir para casar contra a vontade familiar, evocando a paixão sobre fortuna ou linhagem.
No século XX e XXI, o ideal romântico parece ter triunfado, no sentido em que a maioria das pessoas decide casar com base no amor que sentem. Mas isso trouxe paradoxos. Em muitos países, a taxa de divórcio está acima dos 50%,. Muito se discute sobre os segredos do amor eterno ou duradouro, analisam-se as relações com teorias e estatísticas, definem-se estratégias e, como é o meu caso, trabalha-se no sentido de ajudar as pessoas, no contexto global e tecnológico atual, a explorar novas formas de despertar os sentimentos que constituem o amor: a paixão, o desejo, a tesão, a intimidade, a novidade e a fantasia.
O amor tem história. É inato ao instinto humano, mas é também cultural. Das chicotadas pagãs às paixões trovadoresca, dos casamentos clandestinos aos divórcios modernos: evoluímos, mas o mistério persiste. Talvez a intensidade do sentimento venha exatamente disso: o amor tende a brilhar mais quando é separado da rotina, do dever e da previsibilidade. Mas pode também alimentar-se das certezas, do conforto e da presença em paz.
Em suma, o Dia dos Namorados, fora as pressões sociais e comerciais dos dias de hoje, serve para lembrar e celebrar tudo isto: a vontade que desafia regras, que subverte expectativas e que acredita num futuro que só depende de nós.
Algumas tradições românticas portuguesas:
Lenço dos Namorados (Minho)
Uma das mais emblemáticas e antigas. No Minho (especialmente Viana do Castelo, Ponte de Lima), as raparigas bordavam lenços de linho ou algodão com motivos simbólicos: corações, flores, pássaros, peixes, nomes ou versos de amor (“Meu amor, se me queres, manda-me um sinal”). O lenço era oferecido ao rapaz como prova de afeto. Se ele o usasse na manga ou no bolso, era sinal de correspondência. Esta tradição remonta ao século XIX (ou antes), ligada à emigração e à saudade, e ainda hoje é revivida no Dia dos Namorados com exposições e bordados modernos.
Cantarinha dos Namorados (Guimarães e Norte)
Tradicionalmente, o rapaz oferecia à namorada uma pequena cantarinha (pote de barro vermelho decorado com relevos, mica brilhante, corações e símbolos). A jovem guardava-a como “cofre de emoções” ou sinal de noivado. Se aceitasse o pedido de casamento, preenchia-a com doces ou moedas; se rejeitasse, devolvia-a vazia. Esta tradição artesanal, ligada ao barro de Barcelos/Guimarães, é uma das mais icónicas do Norte e ainda se pratica em feiras ou como souvenir romântico no São Valentim.
Rocha dos Namorados (Monsaraz, Alentejo)
Uma tradição pagã ancestral ligada à fertilidade e ao amor. Mulheres solteiras (ou casais) iam à Rocha dos Namorados (uma pedra com buracos naturais) e atiravam pedras ou objetos para trás, de costas. Se a pedra ficasse no buraco, o amor era correspondido ou o casamento viria em breve. Esta lenda, com raízes pré-cristãs (possivelmente ligada a rituais de fertilidade), é mencionada em contextos de fevereiro/São Valentim, embora não seja exclusiva da data.
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