Ok, vamos então falar sobre este documentário e sobre aquilo a que hoje se chama “machosfera”.
Conheço o trabalho do Louis Theroux desde os seus “Weird Weekends”, no início dos anos 2000, em que ele começou a fazer reportagens deste género (entrar no mundo proibido de…), sobretudo por causa da sua imersão no universo do trabalho sexual (mas não só, também sobre religião, subculturas, etc), quando eu comecei a interessar-me por estes temas.
Chamou-me a atenção porque, como ele próprio se assume, é um homem com um ar completamente “geek”, a envolver-se em contextos potencialmente perigosos. Isso cativa a atenção (porque cria ansiedade) e, quando ele não se leva demasiado a sério, tem muita piada.
Nessas reportagens que o tornaram famoso, a sua postura sempre foi a de “outsider looking in” com mais curiosidade do que experiência e, acima de tudo, muito constrangimento e restrição, não fosse ele um homem britânico (apesar de ter nascido em Singapura, mas filho de pais anglo-saxónicos e viveu toda a sua vida na Inglaterra), onde a sua inércia natural lhe concebia quase uma presença invisível no meio dos acontecimentos, permitindo assim que as pessoas à sua volta se revelassem mais do que numa simples entrevista, exatamente por se sentirem “à vontade” com aquele reporter que pouco ou nada intervia.
Depois de muito tempo sem ouvir falar dele, Louis surgiu novamente no meu radar há uns anos, quando lançou a sua série documental “Forbidden America”, onde abordou a questão das redes sociais e da sua influência nos movimentos sociais, focando-se em temas como a sexualidade e a pornografia online.
No entanto, hoje, Louis Theroux está nas bocas do mundo devido ao seu novo documentário da Netflix sobre a chamada “machosfera”, onde se aventura mais uma vez num mundo considerado perigoso, dos homens “tóxicos” que falam sobre masculinidade.
E aí começa, a meu ver, o primeiro problema deste documentário (que, na verdade, nos dias de hoje funciona às mil maravilhas como “rage bait” para o algoritmo).
Ao caracterizar a “machosfera” apenas como um universo genérico de homens “tóxicos” (pois o título “Inside the manosphere” não distingue ninguém, ao invés de, por exemplo, “Inside the toxic manosphere”) e não apresentar nenhum exemplo de outros homens (e mulheres) que também fazem parte dessa “machosfera”, mas que transmitem mensagens mais positivas (ou de forma mais positiva), Louis cai no erro crasso de se tornar paternalista e condescendente com as pessoas que menos respondem a esse tipo de postura: precisamente, os homens tóxicos.
E aí começa o segundo problema.
Louis é um homem casado e pai de uma filha (seria diferente se tivesse um filho?). Enquanto pai, há diversas formas de se educar os filhos. Podemos ensiná-los sobre as mais valias das boas práticas ou podemos acusá-los e humilhá-los pelas suas más práticas. A diferença de resultados entre estes dois estilos são bem visíveis na forma como depois as crianças lidam com as frustrações nos anos seguintes. E, normalmente, quem foi humilhado vai ficar muito mais ressentido e amargo, não porque não aprendeu, mas porque o custo de aprender foi muito maior do que o adrenalina e o gozo de ir contra as regras.
E é isso que acontece neste documentário. Não só os exemplos que Louis escolheu são os mais complicados de desmontar, porque são homens que já fizeram o estrago (e vão continuar a fazer) e subiram na vida à conta disso (porque as regras do jogo online assim o incentivam), como também são carismáticos (o que conta muito) e não vão perder fãs à conta de serem mais ou menos coerentes ou hipócritas naquilo que dizem ou fazem. Eles sabem o que dá cliques e os cliques dão dinheiro, mesmo desrespeitando aos seus próprios princípios e convicções, seja quando ganham ou quando perdem um argumento. Não é a sua vida ou escolhas pessoais que lhes dá visibilidade e fama, é a forma como sabem jogar o jogo da internet e dos seus meandros.
O que Louis consegue aqui, é apenas dar ainda mais plataforma a estes homens, ainda por cima quando usa um subterfúgio visual que é incompreensível dentro do teor da sua mensagem “acusatória”: amiúde, usa slow motions e grandes planos dos seus corpos e dos detalhes mais luxuosos das suas vidas, o que não ajuda em nada a vê-los como fraudes (se era para ser irónico, duvido que isso seja claramente perceptível pelo público) ou como modelos a não seguir.
Mais consequências do que soluções
Os dois problemas que apontei (há outros neste documentário, como não procurar saber o que leva os rapazes a procurar nestas figuras referências paternais), têm consequências que acho muito mais graves do que os problemas em si, o que, suspeito, torna a sua resolução ainda mais difícil.
Começando pela questão do título.
Ao insistir-se que a palavra “man/homem” carrega já em si uma definição “tóxica”, está-se não só a dizer que os homens que vamos ver representados na reportagem são tóxicos, como todos os homens por inerência também o são. E isso é meio caminho andado para fechar todos os olhos, ouvidos e cérebros masculinos que sejam confrontados com este discurso. “Se somos todos inerentemente tóxicos, então é impossível deixarmos de ser. Mais vale nem tentar.” Para além disso, o homem que está a acusá-los disso, e que se pretende caracterizar como “não-tóxico” porque está a expor os outros, é uma figura frágil, quieta num canto, com medo de sequer fazer perguntas, perante alguém com dinheiro, fama e mulheres, que é tudo o que a maioria dos homens mais desejam. Então será que isto incentiva mesmo os homens a deixarem de ser (ou querer ser) tóxicos?
E Louis, aparentemente sem se aperceber disso, insiste em imiscuir-se neste cenário várias vezes, em vez de abrir a porta a outras vozes que mostram outros caminhos, como se a repetição do problema fosse reforçar a sua mensagem, quando na verdade, a torna ainda mais inócua.
Bater insistentemente num cego nunca curou nenhuma cegueira.
A apresentação de um problema não gera em si a sua solução. “Desconstruir” a masculinidade (seja ela tóxica ou não), não tem tido bons resultados, como se tem visto ultimamente, com o aumento da violência verbal e física, porque é giro mandar abaixo mais dá muito mais trabalho “reconstruir”. E o que estes homens tentaram fazer (dentro da democracia total que é a internet), foi isso mesmo: dizer as suas versões de como se deve construir a masculinidade, com tudo o que isso tem de duvidoso e perigoso. Mas ao menos alguém tomou essa iniciativa. Uns tiveram mais visibilidade e sucesso que outros por várias razões, mas a sua proliferação não se deve apenas ao que dizem e ao que são, diz mais sobre quem os ouve e porque os ouvem.
Os homens apresentados neste documentário são paradoxos ambulantes (ao mesmo tempo conservadores e libertinos, violentos e meninos da mamã, empresários e incultos, etc). Mas evidenciar isso faz com que a sua antítese não seja concreta, o que dificulta o seu contraponto. Ou seja, este documentário só os torna ainda mais complicados de analisar e conter, porque quem vive das redes sociais sabe defender-se daquilo que os “expõe”, daí eles tentarem sempre registar com suas próprias câmaras aquilo que é dito, para depois mostrar a sua perspectiva fora do controlo de quem os tenta “apanhar”. Isto para quem vê, não esclarece nem ajuda, só confunde ainda mais e perde-se a finalidade de tudo isto.
O importante não é o mensageiro, é o destinatário
Uma das partes mais importantes deste documentário, a meu ver, é quando Louis conhece dois rapazes que seguem um destes influencers “tóxicos”, mas que retiraram das suas palavras informações muito diferentes daquilo que o próprio Louis esperava.
Um parentises: o problema de analisar as palavras dos homens à semelhança do que se considera “tóxico” ou não, é que quando se fala entre homens (e o Louis devia saber disso), muitas vezes não somos nem meigos, nem empáticos, nem cuidadosos com o que dizemos. A tropa ou os desportos competitivos resultam para os homens porque nós aceitamos que às vezes é preciso ser direto e até bruto nas ordens (ou conselhos) que se dá, é preciso sentir que há uma direção, um propósito, uma missão a cumprir e que só é possível seguir em frente se não pensarmos muito ou se não ficarmos presos em dúvidas existenciais. Na linguagem masculina isso chama-se “dar o corpo às balas”, seguir em frente contra todas as dificuldades ou medos. Porque sim, o medo é de longe o sentimento mais presente na mente masculina. Por isso é que valorizamos tanto a coragem enquanto qualidade superior e por isso é que muitas vezes fazemos coisas sem pensar. Porque não nos queremos deixar bloquear pelo medo nem pelas consequências que mais receamos.
É por isto que há tantos homens à frente de negócios, como atrás das grades. GRANDES RISCOS, GRANDES CONSEQUÊNCIAS.
Os riscos que os homens tomam, muitas vezes quebrando ou contornando barreiras e leis, é o que é o verdadeiro paradoxo masculino. E porquê? Porque desde pequenos que sabemos que se fizermos algo em que nos possamos aleijar ou em que possamos ser castigados, à partida conseguiremos resistir, tanto à dor física como à consequência. É por isso que os rapazes danificam muito mais vezes os seu corpo do que as raparigas nas suas brincadeiras, são muito mais propensos a fazer coisas proibidas ou perigosas mesmo que saibam que podem ser castigados, ou testam muito mais as regras e limitações quando procuram fazer as coisas à sua maneira ou de uma forma fora do comum.
Quando corre bem são génios, quando corre mal são monstros. Mas muitas vezes, são ambos ao mesmo tempo.
Mas voltando ao documentário, quando Louis entrevista os dois jovens seguidores de um dos influencers, o que ele encontram não são dois homens “tóxicos” à procura de vingança das mulheres ou do mundo. São dois jovens que encontraram um sentido positivo para a sua vida nas entrelinhas da verborreia online. Um que tinha perdido um irmão por suicídio e teve que voltar a acreditar na vida e outro que andava na rua à procura de acreditar em si mesmo para conseguir arranjar trabalho.
E aqui entramos no segundo problema deste documentário.
Se há coisa que o mundo tem demonstrado (e que, quanto mais sabemos de história, mais nos apercebemos disso) é que, ao contrário da ideia dos “heróis bons” e “vilões maus”, os seres humanos são muito mais complexos que isso.
Todas as pessoas têm a capacidade de ser (ou podem ser vistas como) boas ou más ao mesmo tempo, em diferentes momentos e com diferentes interpretações.
Aquilo que alguém diz ou faz pode ser interpretado das mais diversas formas, dependendo se forem mais ou menos claros nas suas palavras ou intenções. Da mesma forma, quem observa e ouve, pode concordar com tudo, com nada ou apenas com uma parte daquilo que percebe. Todas as palavras e ideias podem ser levadas à letra ou podem despertar outras ideias que nada têm a ver com o que foi dito. Por isso, quando alguém aponta um grupo de pessoas como todas inerentemente isto ou aquilo, está a ser tão ou mais discriminatório e radical como aqueles que acusa.
E vou dar dois exemplos que me parecem peremptórios do que estou a dizer, dentro deste tema da “machosfera”.
Antes da internet ser o que é hoje, o primeiro grande “influenciador” masculino internacional (pelo menos que me tenha apercebido) era o Tony Robbins. Um homem gigante, com voz grossa e impiedoso nas suas observações. Quem o ouvisse sem grande atenção, pensaria que teria todo o ar de rufia, que as pessoas só o ouviam porque ele tinha um ar impositivo e potencialmente até agressivo, por isso era melhor ouvir a calar. O Tony Robbins, assim de passagem, poderia muito bem ser confundido com um Andrew Tate (o papão da machosfera tóxica), não só pela voz, mas pela postura e pela assertividade. Ambos falam de relacionamentos, de dinheiro, de sucesso, da condição dos homens e das mulheres, etc.
O que cada um diz é diferente, sem dúvida, mas da mesma forma que eu, pessoalmente, não concordo com tudo o que o Tony Robbins diz, também não discordo de tudo o que o Andrew Tate já disse. Isto porque eu não apanhei o Andrew Tate a falar sobre bater em mulheres ou em ganhar dinheiro com prostitutas, ouvi-o a falar sobre focar no trabalho, sobre construir uma carreira e sobre lutar por uma vida com mais sucesso. Algo que Tony Robbins também diz, tal como outros homens e mulheres que fazem parte da “machosfera” porque tentam defender e inspirar os homens com as suas ideias e não apenas com o seu estilo de vida.
Só por curiosidade, outro exemplo que considero que encaixa neste ponto a nível nacional, é o influencer português Peter Castro e a sua exuberante persona “Dr. Love”. Ele é mais um homem com voz grossa, sem amarras nas suas palavras, com uma atitude e uma postura agressivas na forma como fala com as pessoas e que poderia também ser considerado tóxico, pois não perdoa a quem o ofende ou coloca em causa os seus princípios. Ele (quer queira, quer não) também faz parte da “machosfera”, pois é um homem com quem muitos homens se identificam e ouvem as suas opiniões sobre relacionamentos e sexualidade. Mas será que todos compreendem a sua agressividade da mesma forma? Será que algum homem poderá tentar imitá-lo e, em vez de ter piada, ser considerado abusivo?
Ou seja, mais do que uma mera definição de “conjunto de homens”, o que na verdade a expressão “machoesfera” evoca é uma visão intrinsecamente divisionista (sobretudo entre homens e mulheres) e acima de tudo política, essa sim perigosa porque transfere esta separação para um contexto “partidário” e anula a possibilidade de qualquer consenso comum: tudo o que é de um lado é bom, tudo o que é do outro é mau.
Isto leva a uma visão bilateral do mundo (o que até é curioso, dado vivermos numa altura em que há cada vez mais pessoas a assumirem-se como não-binárias) e torna as relações entre os dois lados inconciliáveis, já que esquecemos que, para o mundo realmente funcionar, é preciso um equilíbrio entre as duas partes. Mas esse equilíbrio não exige uma anulação dessa divisão, em que todos têm de ser forçosamente iguais. Tal como o taoismo já o representou através do conceito de “Yin e Yang”, as duas faces da moeda fazem parte uma da outra, não se anulam ou excluem. Somos todos vitais. E esse é o maior paradoxo da humanidade. Não precisamos de ser todos iguais para sermos conciliáveis. As nossas diferenças são a base das nossas escolhas. Porque sem diferenças, não há escolha. E não podemos ser melhores se não soubermos o que é pior.
No fundo, a minha análise a este documentário é de profunda decepção. Não que eu acreditasse que o Louis Theroux fosse capaz de fazer uma obra realmente transformadora, até porque a sua postura nunca pareceu ser essa, mas porque já vi outras obras onde a empatia pela condição masculina, sobretudo pelos que se vêem sem rumo ou sem motivação (esses sim, potencialmente perigosos para a sociedade) provocou uma mudança de perspectiva e posicionamento não só no público mas também nos próprios autores. Essa seria, quanto a mim, a forma mais honesta e construtiva de abordar este tema sensível para alguém, neste caso um homem também, que procura investigar um problema e mostrar que pode haver uma solução, não apenas usá-lo como contraponto de virtudes que em nada favorecem a conversa.
Algumas sugestões de obras onde as próprias autoras (ambas mulheres) mudaram as suas opiniões acerca do tema da masculinidade:

“Em O Paradoxo Sexual, a psicóloga Susan Pinker analisa minuciosamente as mais recentes descobertas científicas das diferenças entre os sexos. Compara, através de testes e análises de personalidades realizadas a grupos de crianças e jovens em idade escolar de diversos estratos sociais, os problemas existentes e conclui quem mais tarde terá hipóteses de alcançar carreiras bem-sucedidas. Também através da observação psicológica de estudantes problemáticos e hiperactivos que se tornam adultos inseguros que entram no mercado de trabalho, acabando por se sentirem frustrados e pouco competitivos, sem saberem porquê, a autora explica que sucede muito mais nos homens do que nas mulheres, uma vez que a biologia é completamente diferente. Estes estudos podem lançar uma nova luz sobre a importante diferença entre homens e mulheres.” Podes comprar este livro aqui!

“A ativista feminista Cassie Jaye explora o futuro da igualdade de género. Ela acompanha o movimento Men’s Rights, que luta pelos direitos dos homens, e questiona-se sobre suas convicções.” Podes ver este documentário aqui!
Há pessoas burras e inteligentes, más e boas em todo o espectro da sociedade humana, não só entre os homens. A internet e sobretudo as redes sociais vieram potenciar as vozes de toda a essa gente mas, pela forma como funcionam os algoritmos, dá cada vez mais evidência a umas vozes do que a outras, seja porque dizem coisas mais chocantes, seja porque aparecem mais despidas, seja porque têm mais graça ou porque fazem o que lhes vem à cabeça só pela tusa de alguém os ver ou ouvir, muitas vezes à custa de outros ou à sua própria.
Mas se o problema hoje em dia é a radicalização dos homens (o que é muito preocupante), não é através da sua ridicularização que os vamos conseguir salvar de si mesmos. Os homens precisam de mensagem que as mulheres nunca irão compreender, tal como as mulheres precisam de mensagens que os homens também nunca irão compreender. Não podemos julgar tudo pela mesma bitola, sob pena de tudo o que não compreendermos ser considerado imediatamente tóxico. Porque isso sim, é o princípio de qualquer tirania totalitária do pensamento.
Avaliação: 🔥🔥 (2/5)
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