As origens eróticas do Natal

Hoje em dia, quando pensamos no Natal, provavelmente imaginamos um tempo ligado à família e às crianças, com decorações coloridas e luminosas, pinheiros decorados, um Pai Natal da Lapónia que traz presentes no seu trenó a quem se portou bem e, talvez, nos lembremos que também se assinala o nascimento de Jesus. Mas antes do Natal cristão ter sido transformado pela Coca-Cola, o próprio cristianismo transformou uma época de festividades hedonistas e libertinas que nada tinham a ver com seres mágicos vindos do Pólo Norte nem nascidos em manjedouras, mas sim com um deus ligado à fertilidade das terras… e não só!

Saturnálias: a Festa da Inversão

Antes do império romano se tornar cristão, no final das colheitas, no mês de Dezembro, celebravam-se as Saturnálias, em honra a Saturno, o deus da agricultura. Esta festa era uma explosão de banquetes, troca de presentes e inversões sociais. Escravos e nobres trocavam de lugar, as normas eram transgredidas, as ruas enchiam-se de festa, música e as casas eram invadidas pelas mais inesperadas visitas. As hierarquias invertiam-se, homens e mulheres trocavam de roupa, o vinho (do sempre festivo deus Baco) escorria abundantemente pelas bocas, trocavam-se presentes e os desejos sexuais resultavam amiúde em orgias espontâneas, com a nudez a colocar todos em igualdade sem o peso simbólico das capas sociais. Por ser uma celebração tão enraizada nas tradições populares, quando o Cristianismo se impôs como religião oficial do império, associou uma das celebrações mais importante da sua doutrina, o nascimento de Jesus (que no calendário agrícola e celestial está também associado ao “nascimento” do sol – solstício – de inverno) a esta época do ano, por ser exactamente nove meses depois da data da sua crucificação (única data concreta conhecida da vida de Jesus) e a transformou no Natal actual.

São Nicolau: o Padroeiro Invertido da Prostituição

A figura de São Nicolau de Mira (século IV), precursor do Pai Nata, tornou-se célebre por uma lenda em que, pela sua generosidade, salvou três filhas de um homem pobre de enveredarem pela prostituição. Segundo a tradição, quando Nicolau soube da situação daquela família, decidiu lançar sacos de ouro pela janela (ou chaminé) durante três noites enquanto as jovens dormiam, preenchendo cada uma das suas meias, o que isto mais tarde inspirou a tradição das meias penduradas na chaminé. Nesse sentido, apesar de São Nicolau ser por vezes considerado o padroeiro das prostitutas, é-o não pelo incentivo mas sim pelo desincentivo e pela sua generosidade com mulheres em dificuldades. Com base nesta lenda, durante séculos, no dia 6 de dezembro, era comum ver celebrações que roçavam o erótico em honra ao santo que “salvava” as mulheres em necessidade e que mantinha uma aura de mistério noturno.

Azevinho: Os Órgãos Sexuais Invertidos

Apesar de não ser muito comum em Portugal, chegamos à tradição de beijar debaixo do do visco (em inglês, mistletoe). Não é azevinho, como às vezes se confunde, mas sim visco (em latim, viscum album), uma planta com bagas brancas, que para os druidas e nórdicos pagãos, era um símbolo máximo de fertilidade e virilidade masculina: as bagas explodiam de forma… digamos, ejaculatória, e era vista como símbolo do sémen divino. O azevinho (em latim, ilex aquifolium), com folhas espinhosas e bagas vermelhas, evocava o sangue menstrual da deusa da fertilidade pagã. Pendurar estas plantas em casa não era apenas decoração; era um convite à interação física que evocava a fecundidade, que podia ir de um simples beijo a um ritual que terminava, muitas vezes, sem roupa.

Época de boas festas e festas boas!

O Natal moderno é uma manta de retalhos cultural: pedaços de rituais romanos de inversão social, plantas sagradas dos antigos europeus e uma figura generosa de um bispo do século IV. E sim, há um cheirinho de celebração da vida — incluindo o prazer erótico — em muitos desses elementos. Mas tudo isso evoluiu para rituais sociais e afetivos que celebram união, renovação e, porque não, desejos secretos no sapatinho. 🔥

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Comentários recentes

  1. Obrigado pelas palavras 🙂 Dos 7 livros em que se baseia, a primeira temporada foca-se nos primeiros dois e a…

  2. Obrigada! 🤓 Já te disse que quando for grande vou escrever assim? Receio que se venha a estragar a coisa…