
Este livro, à semelhança de muitos que tenho na minha coleção, foi encontrado por mero acaso por entre um monte de livros de segunda-mão de uma feira algures em Lisboa. Isto tem sido mais recorrente do que eu alguma vez imaginei. Por muito que eu procure os livros mais recentes sobre a temática do erotismo e da sexualidade, é amiúde nos alfarrabistas, feiras de rua ou pequenos mercados que tenho encontrado as mais interessantes pérolas literárias sobre estes temas, muitas delas de pequenas editoras ou com edições surpreendentemente antigas.
No caso deste livro, da prolífera escritora paquistanesa Shahrukh Husain (e seus convidados, porque conta com a contribuição de diferentes escritores), o título respondia a um dos meus maiores desejos: não só encontrar informações sobre a “mitologia” do erotismo mas, neste caso, “de todo o mundo”, o que prometia uma visão abrangente dos mitos e lendas que eventualmente terão formado conceitos e ideologias nas diferentes sociedades e culturas humanas.
Estruturado em cinco partes (“Despertares”, “Desejo”, “Jogos de Amor”, “Histórias de Luxúria e Libertinagem” e “O Amor Além da Vida (ou O Olhar Extasiado)”), este é sem dúvida um livro fundamental para se perceber como as histórias podem influenciar (ou ser influenciadas) pelas diversas circunstâncias da vida em sociedade. Da antiguidade à época medieval, do Antigo Egito à China, passando por Grécia, Roma, Índia e pelos Muçulmanos e Celtas, muitos destes contos revelam atitudes, pensamentos e comportamentos humanos que ainda hoje se refletem em variadas mentalidades e organizações sociais.
Com muitas personagens inspiradas na própria Natureza, e enquadradas por ideais divergentes quanto à sua “verdade”, a possibilidade de elevar os sentimentos de amor, paixão, devoção e exaltação até ao limite através destas narrativas é amplamente usada como subterfúgio de uma mensagem, de um devir, de um “mandamento”, como se os atos dos protagonistas, sejam eles divindades ou peculiares figuras humanas, pudessem “justificar” a Natureza nas suas as manifestações de atração, arrebatamento e até de violência.
Assim, este é um livro exigente porque propõe um caminho tumultuoso: um desafio ao leitor de navegar por diferentes contextos e cenários com o mesmo enquadramento psicológico. Com uma breve introdução em cada texto e uma muito útil secção de notas finais, onde se dá mais informações sobre cada história, é por vezes assoberbante fazer os saltos interpretativos necessários para perceber que estamos a ler histórias diferentes, escritas por pessoas diferentes, com estilos de escrita diferentes e com pressuposições diferentes.
Mas apesar de tudo isso (ou, talvez, exactamente por isso), este é um livro que merece ser lido várias vezes. Não tanto pela componente erótica, até porque em algumas histórias essa componente é meramente latente ou implícita, mas pela riqueza cultural e histórica que nos revela.
Este é um livro que nos lembra que o Erotismo é também (e talvez sobretudo) feito do imaginário.
Os mitos e as lendas que foram criadas, imaginadas e, quem sabe, sonhadas por alguém ao longo dos tempos, podem ter sido feitas com um propósito em mente, mas podem ter também sido feitas com uma dúvida em mente. A dúvida que incita a curiosidade e a criatividade. Uma ideia que não só nos alimenta a vontade de conhecer o mundo e as pessoas, mas também de lidar com as incertezas, as surpresas e com muitos paradoxos que existem na Natureza, sobretudo na natureza humana.
As divindades e os mitos somos nós. A Natureza fora de nós também somos nós. Aquilo que procuramos representar pelos mais diversos meios, são representações de nós próprios. E estas histórias são, acima de tudo, reflexos das nossas próprias reflexões.
Por isso é que é importante ler histórias, apreciar arte, compreender culturas. Tudo é expressão humana. Expressão essa que advém de diferentes circunstâncias, contextos temporais e geográficos, moldados por acontecimentos passados e organizações baseadas em regras, também elas fruto de ideias, ideais e propósitos.
Tudo isto, quando acreditado (ou imposto) por uma maioria, serve de base a todo o tipo de religiões que, com o tempo, se transformam em doutrinas políticas, que modelam comportamentos sociais e individuais.
No entanto, é com visões abrangentes sobre o mundo como a que este livro sugere, que ficamos a saber mais sobre a nossa própria condição e os nossos condicionamentos, e sobre como não existe uma visão única do que é ser humano (e, neste caso, sobre as relações, o amor, o erotismo e o prazer), o que nos obriga a enfrentar uma questão fundamental: porque é que sou como sou, ou acredito no que acredito? Talvez a resposta fosse sempre diferente se tivéssemos nascido noutro tempo ou noutro lugar.
Avaliação: 🔥🔥🔥🔥 (4/5)
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