
O Verão em Portugal tem a fama de ser quente, não só pelas altas temperaturas, mas sobretudo pelas festas que agitam as terras, grandes e pequenas, de norte a sul do país. Nessas festas, há um tipo de música que se tem destacado desde os anos 90 e que reflete um tipo de cultura erótica que tem caracterizado a história do nosso país e do nosso povo desde tempos imemoriais. Disfarçado de simplicidade brejeira mas absolutamente consciente do que pretende provocar, o Pimba é o estilo de erotismo português que diz mais sobre nós e sobre a nossa história social e política, do que uma mera brincadeira de duplos sentidos.
O Pimba antes do Pimba
A desgarrada, também chamada cantares ao desafio, é uma tradição popular portuguesa em que dois cantadores improvisam ao som de acordeão ou concertina, frequentemente um homem e uma mulher, num duelo de fanfarronice e humor recheado de insinuações. Esta tradição vivia nas aldeias do Minho, do Douro Litoral e da Beira Alta muito antes de qualquer meio de gravação, e as suas origens rastreiam-se às cantigas de escárnio e maldizer medievais, esse território galego-português onde a sátira e a subversão sexual eram parte integrante do cancioneiro colectivo, tendo encontrado o seu caminho pela tradição oral do povo até atingir o seu auge no brilhantismo poético de Bocage.
O duplo sentido erótico na música popular portuguesa não chegou com o pimba, já cá andava antes, em cantigas e poemas ditos de boca em boca.
O que os ranchos folclóricos fizeram, a partir dos anos 30, foi levar essas tradições das aldeias para palcos urbanos, festivais, rádio e televisão, tornando-as assim mais conhecidas, mas sempre enquanto espólio popular, sem grande relevância para as massas mais vanguardistas. A tendência para um certo estereotipismo acabou por ser reforçada pelas competições turísticas entre grupos, e o resultado foi uma música popular assepticamente folclórica, usada sobretudo como caricatura da portugalidade mais rural.
A censura e a esperteza saloia
Há outro fio a puxar, e este passa pelo Parque Mayer.
A Revista à Portuguesa conheceu o seu apogeu precisamente durante o Estado Novo, na altura em que a censura do regime de Salazar mais apertava e obrigava os autores a serem altamente criativos para dizer aquilo que não podiam dizer. O lápis azul dos censores riscava o que fosse directo de mais, e por isso a Revista aprendeu a dizer tudo sem dizer nada, transformando o duplo sentido de recurso cómico em técnica de sobrevivência. O público foi aprendendo a descodificar essa linguagem em tempo real e o riso tornou-se uma arte subversiva: ria-se do que estava a ser dito e ria-se também do que não estava a ser dito, sem que os censores conseguissem provar nada.
Com o fim da censura, e quando as Revistas deixaram de ter o impacto cultural de outrora, começou a gerar-se uma nova onda artistas que tentavam encontrar a sua forma de usar os subterfúgios linguísticos para tocarem neste ponto sensível do povo português, com destaque para as piadas audaciosas de Herman José, as músicas armadilhadas de Carlos Paião, a arte sem filtros de José Vilhena, ou os múltiplos contadores de anedotas picantes que ganharam fama com as cassetes piratas. Por isso, quando nos anos 90 o Pimba tomou conta das festas das aldeias, essa gramática já estava incorporada na cultura popular portuguesa há décadas e o público sabia exactamente o que estava a ouvir, bem como a forma correcta de reagir: com a alegria e o riso cúmplice de quem sabe um “código” secreto.
A onomatopeia de salvação nacional
A palavra “pimba” entrou no léxico musical português nos anos 90, quando Emanuel lançou a canção “Pimba Pimba”, inspirada numa música dos Ex-Votos intitulada “Subtilezas Porno-Populares”, que já continha a expressão com óbvia conotação sexual. O nome do género nasceu, literalmente, de um gesto erótico sonorizado, num país que sabe mas não diz, que sente mas não assume, que canta a letra toda em coro com os filhos ao lado e os sogros à frente e depois olha para o lado com aquele ar de quem estava a falar de pesca.
O bigode do Quim
Se há um homem que percebeu o Portugal erótico melhor do que muitos sexólogos, esse homem chama-se Joaquim de Magalhães Fernandes Barreiros, natural de Vila Praia de Âncora. Ainda que algumas das suas músicas sejam baseadas em versões estrangeiras, ele soube incorporar o lado popular português na sua forma de cantar, tocar e apresentar-se junto de um público de todas as idades. Quim Barreiros construiu uma carreira inteira sobre a premissa de falar abertamente de sexo, usando palavras que apenas o insinuam, com o resultado de toda a gente perceber e toda a gente rir enquanto dança sem vergonha. É a absolvição colectiva pelo erotismo, uma confissão sem pecado, e o que ele faz integra-se perfeitamente na história da cultura erótica portuguesa.
A subversão feminina
As mulheres do Pimba merecem um estudo à parte. Rosinha é firme, confiante, de sorriso amplo, com óculos escuros gigantes que atraem ainda mais a atenção, usa vestidos coloridos, tem uma energia de festa de comunhão e depois canta coisas que numa conversa casual fariam corar qualquer um. Enquanto isso, Mónica Sintra parece estar sempre a falar de amor romântico e às vezes está, outras vezes está a falar de outra coisa completamente diferente, com os olhos semi-cerrados de quem sabe exactamente o que está a fazer. São artistas que sabem que exprimem o erotismo de formas diferentes, mas que usam o lugar comum da mulher tradicional portuguesa para o subverter de forma ousada e provocadora.
O Pimba como arquivo etnográfico do erotismo português
A maioria das canções começa com uma situação do dia a dia (comprar um gelado, ir à igreja, fazer uma viagem) e os versos parecem contar uma história normal, mas tudo isso se revela uma rasteira quando se chega ao refrão. Esta não é uma coincidência, é uma estrutura narrativa deliberada que reproduz exactamente a mesma lógica das cantigas tradicionais, das desgarradas dos bairros antigos e do palco do Parque Mayer: o contexto muda mas o código mantém-se. Os portugueses gostam de tratar o erotismo desta maneira: começar com muita normalidade, muita aparência e depois, quando ninguém está à espera, pimba.
O Pimba parece ser, por tudo isto, uma representação do inconsciente erótico de um país que aprendeu a desejar em código. O que muitos outros países dizem em festas mais iconoclastas, como o Carnaval, nós dizemos em forma de canção em Agosto, em múltiplas festas por todo o país, sejam elas religiosas ou não.
Esta necessidade de um tipo de humor erótico que hoje o Pimba representa de forma mais expressiva em Portugal, é uma válvula emocional e social, um confessionário ao ritmo do acordeão, que nos alimenta o espírito e o imaginário coletivo. Só que é importante saber que esse confessionário foi construído ao longo de séculos, e que esta fantasia alegórica que toda a gente canta em Portugal sempre em folia, não começou na televisão dos anos 90, mas nas praças das aldeias, em dias de festas, com comes e bebes à mistura, com dois cantadores a desafiar-se à concertina e a dizer tudo sem dizer nada, enquanto todos à volta se divertem com a consciência de quem já conhece esse código malandro há muito, muito tempo.
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