O circo do sexo

“Circus tricks” – Peter Fendi (1835)

Uma das analogias que mais gosto de fazer em relação ao sexo é compará-lo ao circo. Algo divertido, emocionante, performativo, por vezes arriscado, inovador e misterioso, e onde tudo pode ser experimentado.

Considerar que o sexo pode ser mais que apenas sexo é um dos principais truques do erotismo.

Na sua essência, o sexo pode ser uma mera ação mecânica, que pode facilmente tornar-se uma tarefa repetitiva, rotineira, mundana, crua e focada em objetivos quantitativos ou qualitativos. Sem imaginação, o sexo é apenas uma necessidade fisiológica, como comer ou dejetar, e é por essa razão que essas três ações são tantas vezes equiparadas em termos de satisfação física.

Mas tal como a experiência de preparar e/ou saborear um prato de alta cozinha é diferente de engolir restos de comida reaquecida no micro-ondas, também o sexo ganha outras dimensões de prazer quando é condimentado por cenários, roupas, palavras, personagens ou desafios exuberantes que estimulam os sentidos e o nosso imaginário.

A magia do sexo, tal como do circo, está na alegria, no fascínio e na surpresa.

Até se pode repetir o mesmo espetáculo, mas o brilho e o brio são a chave para que seja sempre uma emoção, procurando novas formas de melhorar as performances e experimentar coisas diferentes e até arriscadas de vez em quando, para que o público tenha uma crescente e incessante vontade de participar, aplaudir e voltar mais vezes. E nem sequer precisa de ser sempre o maior espetáculo do mundo. Às vezes basta só mesmo um novo truque de “magia” que surpreenda, ou um gesto fora do comum que faça suster a respiração, para provocar aquele brilho nos olhos ou aquele “ah!” de excitação.

Não é por acaso que hoje em dia há cada vez mais performances e artistas circenses que integram a sensualidade e o erotismo nos seus espectáculos. Nas últimas duas décadas, o circo transformou-se num dos territórios mais sensuais da criação artística e as razões são fáceis de perceber. A entrada naquele ambiente escuro e misterioso transporta-nos para um universo paralelo onde tudo parece escapar à norma, onde o belo, o exótico e o grotesco se cruzam, e onde nunca sabemos o que vai acontecer a seguir.

Uma das tendências mais interessantes da prática circense contemporânea é precisamente a ligação da linguagem burlesca (a teatralidade, o jogo de sedução e as coreografias hipersexualizadas) à estética e destreza dos números de circo. O próprio Cirque du Soleil criou o seu primeiro espetáculo de temática adulta “Zumanity” e em Portugal tive o prazer de assistir aos incríveis espectáculos do Red Light Circus e do AirOtic, onde tudo isso é demonstrado com arte, irreverência e humor. E isto só prova que existe sim um potencial erótico naquilo que se consegue fazer com o nosso imaginário criativo, seja em que atividade for.

O sexo, tal como qualquer outra atividade humana, só se torna básico e chato quando perdermos a capacidade de o reinventar e de projetar nele as nossa criatividade, imaginação e fantasia.

Criar e aproveitar todas as oportunidades para mostrar o quanto se gosta, o quanto se quer, o quanto se deseja ou o quanto se admira alguém pode ser tão extraordinário como dar um mortal no trapézio ou meter a cabeça na boca de um animal feroz. Mas às vezes basta isso para soltar o sorriso e o brilho nos olhos da nossa criança interior, eternamente fascinada com o mundo e com as suas possibilidades.

Aliás, provocar um sorriso é como provocar um pequeno orgasmo (isso está cientificamente comprovado). Sorrir é erótico. Rir à gargalhada, mais ainda. É por isso que os palhaços vêm no fim. Rir é o apogeu do prazer. Talvez por isso a diferença entre “rir” e “vir” seja apenas uma letra.

Mas no sexo nada “tem” de (se) vir, seja no fim ou no princípio. Qualquer momento é bom para um rufar de tambores e uma apoteose. A expectativa e a surpresa gostam ambas de ser correspondidas. Da mesma forma, a curiosidade, a vontade e a alegria são os melhores mestres de cerimónia, por isso há que preservá-las ao máximo.

E assim, o espetáculo sabe sempre como continuar. 🔥

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  1. Obrigado pelas palavras 🙂 Dos 7 livros em que se baseia, a primeira temporada foca-se nos primeiros dois e a…

  2. Obrigada! 🤓 Já te disse que quando for grande vou escrever assim? Receio que se venha a estragar a coisa…