
Esta livro não é um livro, é uma guerra. E não é só uma guerra, é um embuste. Primeiro porque promete ser o que não é e depois porque não é o que promete ser.
Começando pelo título e autor, nem o título é o original, nem o autor é o que está na capa. Esta obra, é uma revisão de um livro publicado em 1887, intitulado “História da Prostituição em Portugal – Estudos dos costumes do povo português através dos séculos para servir de complemento à “História da Prostituição”, de Pedro Dufour”, esse sim escrito por Alfredo Amorim Pessoa, que foi truncado, reeditado e criticado pelo compilador Manuel João Gomes neste livro em 1976 (e reeditado pela Antígona, com esta edição, em 2006).
O título, que à primeira vista parece revelar um tom cómico e subversivo sobre o tema principal, rapidamente se percebe que é afinal um título irónico e sarcástico, em que o compilador Manuel Gomes goza na verdade com o autor e com a obra original. Um gozo que não é nem jocoso, nem proveitoso, nem justo.
Um homem do século XX que procura desconstuir um estudo feito por alguém do séc. XIX, com o conhecimento e o contexto social e moral da época, que se dedicou a fazer um trabalho profundo de pesquisa histórica com os poucos meios existentes, não precisaria de muito para colocar em causa muitas das coisas que são ditas ou escritas. Neste caso, nota-se apenas a necessidade de Manuel Gomes realçar uma superioridade moral perante o passado, sem proveito nenhum para o enriquecimento da obra nem do seu autor originais. É apenas uma ridicularização explicitamente reacionária, alicerçada numa visão completamente embutida no espírito revolucionário dos anos 70 em Portugal, e que em nada ajuda a perceber o intuito desta nova obra ou sequer da necessidade da sua republicação desta forma.
Mais útil teria sido fazer-se sim um novo estudo e uma nova abordagem da prostituição com um olhar contemporâneo, mas nitidamente o Manuel Gomes não queria saber sobre o tema, queria apenas sinalizar a sua superioridade moral com um século de avanço.
Este livro é então um resumo abrupto das 645 páginas do livro original em menos de metade (e sem nenhuma das suas “primorosas gravuras”), estando dividido em 3 partes, em que primeiro se dá um enquadramento sobre as histórias, tradições e leis que Portugal recebeu do seu passado celta, ibero, fenício, greco, cartaginês, romano, lusitano, àrabe e espanhol, e que moldaram muita da nossa visão sobre a libertinagem, o adultério e a prostituição. Na segunda parte, informações sobre os primeiros anos da monarquia portuguesa e as suas repercussões nos costumes da sociedade civil. E finalmente, uma terceira parte onde se abordam questões mais próximas da época do autor (finais do séc. XIX), em que os relatos históricos dão lugar a retratos novelescos da vida quotidiana nas cidades mais urbanas, como Lisboa e Porto, onde a prostituição passa a ter outro lugar e outra importância, não só na vida das pessoas, mas também perante o estado e as organizações.
Um estudo muito interessante feito por Amorim Pessoa, sobre um tema muito sensível, com seriedade e profundidade, onde as descrições históricas são intercaladas por momentos mais novelescos ou jornalísticos, onde (obviamente) o autor expõe também a sua opinião sobre os casos mais controversos, contendo ainda também alguns textos de outros historiadores e personalidades importantes da época, e que atribuem uma riqueza ainda maior à obra original.
No entanto, no final de cada capítulo, Manuel Gomes faz sempre a sua análise crítica através de breves anotações que, na verdade, só revelam uma necessidade completamente descabida de passar uma mensagem vanguardista e anti-moralista que acaba, no fim, por parecer só ridícula.
Com tudo isto, para além da clara tendência do autor original para colar a ideia de prostituição à de libertinagem, comportamentos desviantes, imorais e até fatais (leia-se o desejo incontrolável, a homossexualidade, o adultério, a propagação das doenças), o que se fica a saber sobre a prostituição em Portugal em particular são algumas informações bem pertinentes sobre as tentativas de legalização e as dificuldades que isso provocou em termos de fiscalização e de aplicação das leis, fosse pela estruturação do oficio de prostituta, fosse pelo seu enquadramento social e cultural, exploração laboral e até localização habitacional nas diferentes épocas.
Em suma, esta é uma obra que reflete dois olhares, de dois tempos diferentes,, que olham para as questões da sexualidade e das suas manifestações com uma visão crítica e oposta, mas num conflito desnecessário, onde a obra de Amorim Pessoa chegaria para ficarmos com uma referência importante sobre o passado de Portugal nesta área.
Ou então que esta obra refletisse mesmo o espírito divertido do seu título.
Avaliação: 🔥🔥🔥 (3/5)
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