
Há um “provérbio” que é dito num filme para crianças, mas que ressoa recorrentemente no meu pensamento: “o ontem é história, o amanhã é mistério e o hoje é uma dádiva, por isso é que se chama presente.”
Esta clarividente frase, que parece ter várias origens, não é definitivamente para crianças. Quando somos crianças temos ainda muito pouca história e raramente refletimos sobre os mistérios do futuro. Quando somos crianças focamo-nos sobretudo no presente. Presente esse que não é ainda uma dádiva mas sim uma constante surpresa. E essa surpresa provém de dois factores que caracterizam os nossos primeiros anos de vida: a ingenuidade e a curiosidade.
No entanto, quando crescemos, a perda dessa ingenuidade, que resulta das consequências da vida, contribui para que a percepção que temos do mundo seja cada vez menos surpreendente, mais autoconsciente e, por conseguinte, mais desconfiada e cínica, levando-nos a associar as surpresas do presente às suas respetivas consequências, E aí sim, aprendemos o que é o mistério do amanhã.
Esta consciencialização do tempo, do antes e do depois, costuma provocar grandes desafios psicológicos a quem está a aprender a conviver com as ações humanas, e é talvez por isso que o provérbio que mencionei tenha tocado a tanta gente e ainda hoje seja usada em diversas obras culturais,
Na busca pelo equilíbrio, há quem se deixe reprimir mais ou menos pelo peso do passado, há quem se deixe levar mais ou menos pela ansiedade do futuro e há quem se deixe condicionar mais ou menos pela urgência de viver o presente como se não houvesse amanhã. No âmbito do erotismo e da sexualidade, estas formas de encarar a realidade transpõem-se muitas vezes para a forma como se encara o próprio sexo e o prazer.
Quando, nos anos 60, os pioneiros do estudo científico da sexualidade Masters & Johnson, resolveram chamar “preliminares” às interações sexuais que se fazem antes da penetração, criando assim a ideia de uma resposta sexual sequencial, que começa numa ação e termina numa “resolução” após o orgasmo, nitidamente assumiram uma linha temporal de antes, durante e depois.
Mas, ao contrário de uma corrida com uma meta delimitada, o objetivo da interação sexual não é chegar mais rápido ou mais longe, mas sim correr por gosto. Porque, tal como diz outro provérbio, quem corre por gosto não cansa.
Assim, apesar da importante lição sobre aproveitar o momento presente, a linha temporal do prazer é muito mais dinâmica do que linear.
na exploração erótica, nem tudo tem de ter um princípio um meio e um fim.
Com base no meu estudo e na minha experiência, formulei também uma frase-chave sobre este tema: “Erotismo é tudo o que acontece antes, durante e depois do sexo”. Defendo esta ideia nestes termos porque sei que muitas pessoas ainda vêem o ato sexual como uma atividade sequencial. Sem isto primeiro não há aquilo depois e se não chegar ao fim, então nem vale a pena.
Mas a interação sexual, e sobretudo o Erotismo, vai muito para além dessa formatação, Da mesma forma que aquilo a que chamamos “preliminares” pode ser feito em qualquer altura da relação (a sedução, as massagens, o sexo oral, etc),, também o orgasmo pode ser apenas o princípio ou pode até nem haver orgasmo, nem um fim anunciado, para que a experiência seja extraordinária.
O prazer não se define pelas métricas do tempo.
O que conta não são os segundos nem os minutos, nem quantas vezes se faz ou se deixa de fazer. O que conta é a vontade. Já dizia o Variações.
A vontade de querer, de fazer, de desfrutar e, acima de tudo, a vontade de respeitar o passado, o presente e o futuro de quem nos quer e de quem nós queremos.
E essa vontade, só se mantém viva hoje se for sendo mantida todos os dias… como se houvesse amanhã. 🔥
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