
Num mundo onde temos acesso a cada vez mais opções de escolha, o que torna apelativa uma relação de longo prazo? Se as relações dão trabalho, exigem capacidade de superação de dificuldades, exigem discussão de ideias, exigem adaptação de personalidades e estilos de vida, exigem integração de novas regras e procedimentos, e exigem a expansão da nossa vida comum a outros ciclos de pessoas, com as quais temos de criar outras relações com diferentes níveis de exigências, de que vale todo esse trabalho quando há sempre alguém no telefone ou no computador à espera de nos atrair com novas (e instantâneas) ideias de prazer ou de como ser feliz?
A resposta é simples: num universo de opções infinitas, a liberdade de escolha é, na verdade, uma ilusão.
O cérebro humano é capaz de criar infinitas versões da realidade, mas só consegue tomar decisões se tiver um número limitado de opções. De outra forma, perde-se na eterna ansiedade da novidade e da diferença, e deixa de acreditar que algum tipo de verdade ou felicidade possam ser possíveis, já que há sempre a esperança de existir uma melhor opção nunca experienciada.
O que parece cada vez mais difícil de aceitar, num mundo onde tudo se afigura possível e acessível é que, ao contrário do universo perfeito da nossa imaginação, o que é mais profundamente inerente à existência humana é a imperfeição. E é precisamente na nossa inevitável imperfeição que está a possibilidade da perfeição se manifestar.
O que faz de nós seres fascinantes são precisamente as nossas lacunas. Se não as tivéssemos, seriamos banais e uniformes, sem nenhum sentido ou necessidade de evolução ou crescimento.
É na superação de dificuldades e problemas que criamos novas soluções, que olhamos o mundo de forma crítica e alteramos o que é necessário para tomarmos a direção que pode melhorar a nossa vida e de quem nos rodeia.
Se basearmos as nossas escolhas apenas nas nossas emoções, rapidamente percebemos que os estímulos se esgotam, que o que é bom hoje não é amanhã, que nada dura para sempre, que toda a gente é apenas resultado dos seus impulsos e que a qualquer momento alguém se pode sentir atraído por nós com toda a sua energia, como de, já sem energia, a qualquer momento pode desistir de nós.
Essa volatilidade emocional transformou a vontade de explorar relações a longo prazo numa mera necessidade de criar relações “a prazo”. Sem grandes compromissos ou expectativas e a anulação ou não aceitação de qualquer tipo de exigências.
É, aliás, por conta do peso que palavras como estas ganharam ao longo dos tempos, que atualmente se considera que o estímulo erótico não implica compromisso, expectativa ou exigência.
Mas a verdade é que um erotismo sem tudo isto, é um erotismo fugaz, superficial, que só serve para distrair ou entreter.
O erotismo, no geral, pode realmente estar em todo o lado, tal como a excitação e as experiências sexuais podem acontecer por obra e graça do acaso. Mas quando aplicado numa relação, ele ganha a dimensão de emoções mais complexas, de um conhecimento mais profundo, da vontade de estar com alguém por razões que vão para além da aparência, da confiança, da cumplicidade, da conexão afetiva e da capacidade de entrega física, emocional e psicológica.
O erotismo não está apenas na nudez, na exploração dos sentidos, nas ações irreverentes, transgressões ou nas experimentações. O verdadeiro erotismo está na vontade consciente!
E essa vontade depende da dedicação de todos os envolvidos na felicidade e no bem estar de cada um. Propositadamente. Sem isso, nenhuma das ações esporádicas e expontâneas produzirá um efeito de excitação afetiva e transformadora. E sem isso, nenhuma relação, seja de curto, médio ou longo prazo, conseguirá ter disponibilidade para uma entrega total, ou para decifrar quais os estímulos que poderão alimentar um universo erótico em comum que se reconheça, que se consiga expandir e, sobretudo, que se saiba renovar ao longo do tempo.🔥
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