
A chegada de filhos à vida de um casal é muitas vezes vista como uma mudança demasiado impositiva e impeditiva da intimidade e do erotismo. No entanto, esse peso só se gera se associarmos o erotismo exclusivamente ao sexo.
Fisiologicamente, é certo que a gravidez e o pós-parto provocam nas mulheres alterações hormonais e físicas que os homens não sentem. Nesse sentido, sim, há que ter atenção, empatia e compreensão por todo o processo, percebendo cada um está a passar pela experiência de forma diferente.
Mas, ao longo de toda a história da humanidade, homens e mulheres tiveram que lidar com a chegada de filhos e isso nunca os impediu de continuar com as suas relações íntimas. E porquê? Bem, as razões são vastas, mas interessa-me focar sobretudo na nossa capacidade erótica, que nem sempre precisa de uma componente física.
O erotismo é sobretudo um processo mental, criativo, exploratório. É uma escolha, uma decisão. Mesmo em situações onde a nosso corpo está cansado ou até mesmo debilitado, é possível criar uma proximidade, um desejo, uma disponibilidade para cuidar, satisfazer e estimular, ou estar simplesmente disponível para receber.
Durante a gravidez, a vontade e o desejo das mulheres tende a ter altos e baixos, como ondas, mais ou menos intensas, que vão e voltam. Mas como os bons surfistas, quem souber “surfar” essas ondas, saberá quando deve remar ou relaxar, quando deve fazer truques vistosos ou simplesmente sentar e conversar enquanto as ondas passam.
O desafio é que, quanto menos experiências houver com a gravidez, mais complicado será aprender a surfar estas ondas por improviso. Ou seja, casais com menos filhos terão menos probabilidade de se compreenderem em todas as situações imediatamente. E em tempos onde a natalidade está em forte declínio, isso está a dificultar muitas relações.
Ao trabalhar com pais e mães nas minhas consultas, e sendo eu próprio pai de duas crianças, sei que existe uma ânsia inicial quase instintiva em dar toda a atenção, amor, carinho e energia à nova pessoa da relação, e esquecer a pessoa que a trouxe ao mundo connosco.
E digo “nova pessoa” porque isto não é só uma questão de filhos. Como a Esther Perel afirmou no seu livro “Inteligência Erótica” e também num podcast sobre o tema, trazer um filho para uma relação é como trazer um terceiro elemento qualquer, mesmo para um “ménage à trois”: desfocar do nosso par é a desvalorizar quem nos levou até ali, quem nos proporcionou aquele momento especial. Sem essa valorização, podemos perder a ligação, a cumplicidade, a confiança e, muitas vezes, até o próprio desejo pelo nosso par.
Se escolhermos ter uma vida em comum com alguém, ao ponto de querermos ter um filho com essa pessoa, não nos podemos esquecer que esta é a ordem das coisas: primeiro a relação, depois o filho; primeiro a base, depois a novo elemento; primeiro a estrutura, depois a criação.
A estimulação do desejo erótico é tão ou mais importante depois dos filhos como foi antes, Mas adaptada às novas necessidades de cada um.
Manter a cumplicidade, a ligação emocional e a disponibilidade para jogos eróticos, não deve ser apenas mais uma tarefa a acrescentar à lista de afazeres paternais. Deve estar intrinsecamente enraizada no inconsciente de cada um, para que se possa manifestar no dia a dia, sem ser interpretada como pressão, obrigação ou exigência.
Mesmo sem sexo penetrativo (sobretudo na gravidez ou no pós-parto, que possa implicar um esforço extra, dor ou mal estar físico), pode-se estimular os sentidos, a imaginação e as fantasias, ou simplesmente contribuir para que ninguém fique sobrecarregado com responsabilidades ou tarefas ao longo dia, não como uma “moeda de troca” mas como um simples ato de inteligência emocional para o bem da relação. E isto é fundamental, mesmo quando as crianças já estão mais crescidas.
Mas o que acontece frequentemente é que, por estarmos demasiado focados na nossa situação individual, esquecemos o outro lado e vivemos num constante desequilíbrio erótico entre vontade de dar e vontade de receber. Pior até, vivemos num medo de dar e de receber. E isso pode provocar situações de grande instabilidade num casal.
Uma das mais recorrentes e importantes é a falha na comunicação erótica, verbal e não verbal. Isso acontece sobretudo quando a procura por intimidade ou aproximação é recusada recorrentemente.
Como é tão bem explicado nesta deliciosa “lição” da fascinante School of Life, numa relação amorosa, com ou sem filhos, é tão importante respeitar uma recusa como respeitar a vontade de aproximação. Hoje em dia, com o chavão “não é não”, deixámos de perceber que a rejeição também pode ser transmitida de forma positiva, sobretudo quando o fazemos no seio de uma relação com alguém que gostamos e que percebemos que só nos quer bem.
Zelar pelo bem-estar de uma relação, não é esperar que a outra pessoa sinta, pense e faça as mesmas coisas que nós, nos momentos certos e com a capacidade de ler os nossos pensamentos ou as nossas emoções. Estar numa relação saudável é sentir que uma aproximação não é vista como um comportamento indesejado, e que uma rejeição (seja ela porque razão for) é gerida com empatia e carinho, de forma a não destruir a autoestima de alguém ou a própria relação.
Nestas alturas de maior instabilidade emocional, a conexão erótica está nos detalhes. Uma negação sem consideração pelos sentimentos do outro, num tempo já cheio de outras prioridades afetivas, pode causar uma sensação de insignificância difícil de gerir.
numa relação amorosa, Um “não” deve ser dito com a mesma consideração, respeito e carinho que um “sim”. Só assim é possível manter o entusiasmo para próximas oportunidades.
As criança só precisam de se sentir amadas e seguras. E desde muito cedo, caso seja possível, é importante também que elas se sintam confortáveis em diferentes espaços e com diferentes pessoas (familiares, amigos, babysiters), para os pais se lembrem que antes de serem pais, são amantes.🔥
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