28 de julho de 2026
Pode o erotismo salvar o mau sexo?

Mau sexo pode ser muita coisa. Desde ser um ato egoísta em que só um dos intervenientes tem prazer, à falta de conhecimento dos pontos mais erógenos e capacidade para os estimular corretamente, passando pela falta de vontade e entrega, demasiadas exigências, pouca paciência e comunicação, ou porque nem a química nem a física corresponderam às expectativas.
O mau sexo pode acontecer num dia em que estamos mais cansados, nervosos, stressados ou com outras coisas em mente, mas também pode acontecer porque estamos sobrecarregados com culpa, falta de autoestima, pressão para agradar ou, pelo contrário, porque achamos que não temos de agradar ninguém e é tudo uma chatice depravada que só dá é trabalho. Por fim, o mau sexo pode acontecer quando há algo importante que não sabemos sobre nós ou sobre o outro ou, pior, quando simplesmente já não queremos saber de nada.
E é nesse momento que o mau sexo transforma o próprio sexo numa coisa má.
O pior melhor sexo
Em Portugal, quando se fala em sexo, sobretudo nos meios de comunicação, é comum associá-lo na mesma frase a "crime", "abusos", "vícios", "drogas", "desvios", "depravações", etc. Por outro lado, nos mesmos meios, quando se fala em prazer sexual, o mais comum é enquadrá-lo em contexto clínico, num discurso esterilizado, com métricas e normas que devem ser respeitadas a bem das estatísticas. E quando não é assim, é para rir e gozar com anedotas e músicas que puxam mais à ridicularização do que a uma visão construtiva e estimulante daquilo que é um dos maiores prazeres do ser humano.
Isto porque, segundo a moral regente em portugal, há maior virtude em suportar o sofrimento, do que em desfrutar do prazer.
O prazer hoje é feito para ser fútil, fugaz, de consumo rápido, para desfocar a atenção da população dos problemas maiores. O prazer mais promovido (e vendido) é para as massas - os futebóis, os festivais, as congregações. O prazer hoje é para ser puro entretenimento, dinâmico, com défice de atenção médio de três minutos e infinitos swipes para cima e para baixo ou para a esquerda e para a direita. E o prazer hoje também tem de pagar imposto, claro. O jogo, o álcool, o tabaco. Em suma, o prazer "certo" para a sociedade atual, é o que mais contribui para o estado e tolda o raciocínio e a atenção.
E na base de tudo isto, o sexo, o prazer mais basilar da vida, é também ele transformado em produto comercial e industrial porque, obviamente, não poderia ser só prazer.
O sexo, ironicamente, desfoca a humanidade do trabalho, do dever, do medo. O prazer sexual não pensa em contas, dívidas ou políticas. Isso resulta em mais pessoas satisfeitas, felizes, relaxadas, interligadas. Que ousadia?! Foquemo-nos nas doenças, nas gravidezes indesejadas, nas violações, nos abusos e maus tratos. O sexo é violência. É mau. É sujo. Mas ao contrário dos outros vícios, tem de ser feito para podermos dar continuação à espécie. Então que se faça, mas contrariados. Uma queca paradoxal em prol dos contribuintes que já nascem com NIF. Prazer, jamais! Porque se for bom, ainda vamos querer mais e depois quem é tem tempo para ver notícias e anúncios?
O sexo é mau. Por isso é que a pornografia é má. A prostituição é má. O mamilo a descoberto nas redes sociais é mau. Guerra, sim. Desastres, sim. Pancadaria, tiroteios, sim. Competição entre países, raças, credos e, sobretudo, entre sexos, obviamente que sim. Quanto mais competirmos, melhor. Não há tempo nem paciência para dar ou ouvir explicações. Discutir muito, sim. Mudar de opinião, não. Perder tempo com nuances, nem vale a pena.
E parecendo que não, o "mau sexo" é, na verdade, um reflexo de tudo isto.
Humanidade anti-natura
O ato sexual está implícito na natureza. Mais do que meramente pelo prazer, a atração e a interação entre corpos é o que, no limite, produz vida (e não necessariamente apenas pela reprodução, mas também pela criação de um bem-estar geral que permite melhores condições de vida). Muitos animais têm no ato sexual o seu último ato antes de morrerem ou serem mortos. Muitos vivem só para conseguirem consumar esse ato. É essa a verdadeira importância da sexualidade. É inerente à existência e à subsistência de todos os seres vivos, e é por isso que muitos deles arriscam tudo por uma só oportunidade de conseguir esse privilégio.
Entre os humanos, o ato sexual tornou-se algo regido por ideias e ideais em vez de comportamentos naturais. Milhares de anos de evolução e interação entre sociedades com diferentes mentalidades, impuseram "fórmulas" vindas de outros quadrantes geográficos, ideológicos, políticos ou religiosos, que em nada se enquadravam em determinadas comunidades, e que ganharam contornos de "universalidade" com a globalização, as exigências dos mercados e as campanhas de propaganda.
Hoje em dia, o sexo parece depender de termos corpos assim ou assado, de sabermos esta técnica ou aquela, de sermos ricos ou pobres, de sermos leigos ou doutorados, de sermos precoces ou demorados. No sexo, "ser ou não ser" não é só a questão, parece ser também a razão.
Mas, na verdade, o sexo (e eu diria até, o bom sexo) só depende de uma coisa: disponibilidade. Para sentir, para aprender, para querer, para conhecer, para descobrir e explorar mas, sobretudo, para errar, evoluir e melhorar.
A disponibilidade é a coisa mais natural do mundo (tudo o que nasce anseia por viver) mas, nos humanos, com o tempo, ela torna-se também uma vontade propositada (daí a importância do nosso consciente) de ver as coisas pelo lado positivo (porque dificilmente estamos disponíveis para coisas negativas). Ao estarmos disponíveis para nos envolvermos em algo, estamos a assumir que nem tudo pode ser perfeito, mas dispostos a desfrutar disso da melhor forma e a melhorar o que for preciso. O problema é que a disponibilidade, com tudo o que somos, não se manifesta só porque sim.
Ao longo da vida, muitos acontecimentos podem condicionar a nossa disponibilidade.
Experiências traumáticas, desgostos, maus exemplos, humilhações. Muitas vezes, as memórias deste tipo de acontecimentos controlam a nossa consciência e impedem-nos de estar disponíveis da forma que gostaríamos, rendidos, entregues e sem inibições.
Mas exatamente porque não conseguimos controlar a nossa vida real, e porque contrapor os nossos medos à verdade crua do sexo concreto pode parecer demasiado arriscado, os animais, incluindo os humanos, inventaram algo que propõe a ideia do sexo sem ser propriamente sexo. Algo que pode incentivar ao sexo, que pode intensificar o sexo e que pode promover o prazer muito depois do sexo: o erotismo.
O erotismo é o meio-termo entre o real e o imaginário, entre a verdade e a consequência, entre a própria vida e a morte.
O erotismo não só permite a manifestação de todo nosso potencial sexual, como também a criação de todo um universo de possibilidades e ideias. O erotismo é uma forma de recriar a nossa história íntima e enfrentar os nossos medos, os nossos desejos e as nossas fantasias, controlando os seus resultados. O erotismo é um purgatório sem céu nem inferno. E é nessa purga que nos podemos libertar dos pesos, da culpa, dos erros do passado e dos medos do futuro.
É no erotismo que expomos a nossa verdade e exploramos a nossa vontade de viver o prazer sexual com disponibilidade total. É no erotismo que podemos ser os criadores e os artistas que demonstram capacidade para superar os seus erros e adversidades. E nessa criação, incluir quem amamos, quem desejamos, quem queremos atrair e partilhar todo o nosso prazer.
É no erotismo que idealizamos as histórias onde o sexo não é apenas um ato, é um estado mental, que pode ir do romance mais lamechas ao porno mais obsceno. E é onde o sexo deixa de ser "bom" ou "mau" e passa simplesmente a ser natural, com toda a sua complexidade e potencial.🔥
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