13 de julho de 2026
Os calores de Verão

Porque é que as pessoas parecem mais atraentes no Verão? Será isto um fenómeno dos países que têm estações do ano diferentes, ou será que nos países onde é Verão ou Inverno o ano inteiro também sentem esta mudança com o aumento dos calores?
Não sei se já refletiram sobre isto, mas muitos dos comportamentos humanos, incluindo a forma como nos organizamos em sociedade, foram influenciados, em grande parte, pelos climas que apanhámos nas nossas sedentarizações, após milhares de anos a ser nómadas e a fugir daquilo que não nos era "favorável".
Viver num lugar onde chove ou neva mais vezes do que num lugar onde faz muito sol, muda não só a forma como nos protegemos ou expomos mais à natureza, como pode também definir se saímos mais ou menos de casa (ou das grutas) e, por consequência, se nos cruzamos com mais ou menos pessoas; se há mais ou menos recursos (como água, florestação, comida) e, por consequência, se podemos sobreviver mais tempo ao ar livre ou se temos de racionar tudo o que encontramos para o caso de não podermos sair durante muito tempo; se o frio ou o calor extremos causam doenças ou mortes inesperadas e, por consequência, se é melhor ter mais ou menos filhos para sobreviver a essas casualidades; ou se, simplesmente, as temperaturas são mais ou menos estáveis e conseguimos planear ou prever que haverá mais abundância numa altura e menos outra e, por consequência, sermos mais comunitários e altruístas ou mais preocupados em ter o suficiente para a nossa sobrevivência sob pena de sermos assaltados por outros com as mesmas preocupações.
Esta influência está, aliás, comprovada em diversos estudos de "climatologia histórica", que reforçam o conceito de "determinismo geográfico ou ambiental" referido por vários historiadores, arqueólogos e antropólogos, como neste livro de Brian M. Fagan, neste livro de Jonathan Margolis, ou neste livro de Jared Diamond.
Em períodos de aquecimento sustentado, como aconteceu durante séculos na Europa medieval, as colheitas tornaram-se mais abundantes, as populações cresceram substancialmente e multiplicaram-se também as ligações entre povos distantes. Está também bem documentado que sociedades que partilhavam o mesmo clima ao longo de uma faixa larga de território, como aconteceu na Eurásia, conseguiram fazer circular bens alimentares, animais domesticados e conhecimento com muito mais facilidade do que sociedades separadas por climas radicalmente diferentes.
Se o clima consegue abrir rotas de comércio, aproximar povos inteiros e fazer prosperar civilizações, não é propriamente estranho que também abra o corpo e a mente de cada um de nós ao prazer.
O sol que temos cá dentro
Quando a temperatura sobe, toda a nossa biologia reage: as veias dilatam, a circulação acelera, a pele fica mais sensível ao toque e o suor do corpo liberta feromonas, que estimulam os sentidos de quem nos rodeia sem quase darmos por isso. O sol eleva os níveis de vitamina D, que por sua vez estimula a produção de testosterona em pessoas de todos os géneros, enquanto a luz natural regula a melatonina e liberta serotonina, um dos principais potenciadores do desejo.
Por tudo isto, nos países onde as estações do ano costumam ser bem marcadas, como Portugal, ou quando pessoas de regiões com menos sol vão de férias para zonas mais quentes, o tempo de Verão funciona como uma 'conspiração hormonal' a favor do erotismo.
Menos roupa, menos filtros
Não precisar de usar as camadas de roupa que o frio impõe ao corpo não é só uma questão de vestuário. É uma remoção de filtros físicos e psicológicos. No tempo de calor, o corpo existe de forma mais pública e mais visível nos espaços partilhados, seja numa praia cheia de pessoas, numa esplanada no meio da cidade ou numa mesa de jantar ao ar livre com amigos e familiares. E esse simples facto, essa presença da nudez assumida, mesmo que parcial, interfere na dinâmica de tudo à nossa volta.
O psicanalista Didier Anzieu descrevia a pele como uma interface, o órgão que ao mesmo tempo separa e liga o eu ao outro. No Verão essa interface fica mais activa e mais exposta. Uma pele nua que toca intencionalmente noutra pele nua (seja um braço, uma perna, um peito, umas costas...), carrega uma carga que o mesmo gesto, feito com roupas espessas no Inverno, não teria. Isso não significa necessariamente que seja mais ou menos sexual, significa apenas mais consciência do corpo, do seu tónus e das suas vibrações, tanto nossas como do outro.
O desejo de ser outro
O Verão tem outro efeito psicológico que provoca um profundo impacto na forma como desfrutamos dos prazeres da vida. Por ser normalmente uma altura de férias, o Verão convida-nos a sair dos nossos ambientes quotidianos e, muitas vezes até, dos nossos países e dos nossos núcleos mais familiares. Isso dá, muitas vezes, a sensação de que as regras habituais ficam suspensas. Saímos da rotina, dos papéis e dos contextos que nos definem durante o resto do ano. Em férias, deixamos de ser a nossa profissão ou as nossas responsabilidades, e passamos a ser sobretudo um corpo num lugar diferente, com tempo para sentir e "curtir".
Esta ruptura com a identidade quotidiana é eroticamente muito poderosa. O desejo precisa de novidade para prosperar e poucas coisas são mais novas do que estarmos longe daquilo a que já estamos habituados ou sermos, por uns dias, alguém ligeiramente diferente de nós próprios.
Será que o que é bom tem sempre de acabar?
Há aqui um paradoxo: o mesmo Verão que activa o desejo também o pode esgotar. Sobretudo quando o calor extremo se torna desconfortável em vez de convidativo, ou quando as exigências da mente e do corpo não se encontram alinhadas. A intensidade com que vivemos tudo, potenciada pela nossa energia de tudo à nossa volta, pode ser levada ao limite quando tudo se torna demasiado intenso e o corpo não consegue resistir ou recuperar. Seja sozinhos, em casal, em grupo ou em família, o Verão com tempo contado pode levar a excessos, ser desgastante ou criar atritos com outras pessoas que também querem aproveitar o seu Verão ao máximo.
O Verão não se torna erótico por si só. O calor do Verão abre possibilidades, não promete resultados. Todas as estações do ano e todos os tipos de climas podem despertar erotismo e desejo sexual. É por isso que não existem só pessoas na linha do Equador. Mas o sol, o calor e a luz dos dias de Verão são, sem dúvida, fundamentais para estimular o desabrochar da vida e do desejo. Não é por acaso que muitas das histórias mais eróticas se contam nos meses de Verão (vê aqui a minha lista dos filmes mais eróticos de Verão). Nós somos parte da Natureza, e tal como os nossos antepassados celebravam em grandes rituais, festas e orgias, também nós renascemos com a energia do sol, ondeamos pelas ondas de calor e sentimos vibrações pulsantes que os nossos corpos emanam, como flores abertas nos campos à espera de polinização.
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