14 de setembro de 2026
I Want Your Sex (2026)

Este filme é um comentário à realidade sexual atual (sobretudo ocidental e sobretudo americana), mas curiosamente não sei se a mensagem que passa é aquela que os seus autores acham que passa. Ao contrário da narrativa que foi nitidamente elaborada para os media, e que foi engolida em muitas das críticas, não considero este filme uma exemplo para incentivar os GenZ a terem mais relações ou a fazerem mais sexo. Aliás, até acho que faz o oposto. Mas comecemos pelo princípio.
Esta é uma história baseada numa experiência pessoal de Karley Sciortino. Para quem não sabe, Karley é a autora e apresentadora da magnífica série documental “Slutever”, feita para o canal Viceland em 2018 (hei-de escrever sobre isso aqui em breve), onde ela se envolve nos mais diversos universos da sexualidade e do erotismo, ao estilo “Sexo e a Cidade”.
Este filme “I want your sex” foi o seu primeiro argumento de cinema, baseado numa relação que ela manteve com um dos seus chefes no início da sua carreira.
Escrito no início da década de 2010, devido aos casos trazidos pelo movimento #MeToo nessa altura, Karley e o realizador Gregg Araki decidiram inverter o sexo dos protagonistas, criando uma dicotomia entre uma mulher mais velha e um homem mais novo, explorando essa relação de poder.
No entanto, a verdade é que essa mudança não resulta da mesma forma quando se tenta manter a mesma história. Neste caso, a dinâmica de poder não é tanto sobre o uso do poder através da sedução, ou da entrega ou da atração, mas sim simplesmente através da performance do poder, a performance da submissão e a falta de justificação de toda a “vontade” de desenvolver uma relação de dominação e submissão.
O que dá a entender é que o desejo e a vontade surgem do nada, o interesse mútuo é meramente intencional (ela tem a intenção de o usar porque precisa de salvar o negócio, ele tem a intenção de ser usado por ela porque quer viver o prazer que não tem na sua relação) e não há uma emoção real e concreta que os motive. Apenas há quando a brincadeira acaba e eles querem mais. Como quando se tira um doce a uma criança e ela chora, não porque gostava do doce, mas pelo vício do açúcar.
Nesse sentido, a mensagem deste filme não é (ou não consegue ser) aquela que os seus autores aproegoam. Não é sobre a geração Z aprender a gostar mais de sexo, ou aprender a arriscar mais para ter uma relação com alguém. Se tanto, neste filme todos gostam demasiado de sexo (mesmo aqueles que dizem não gostar), mas não o conseguem estar satisfeitos com nada porque estão focados em objetivos em vez de emoções. E isso sim, é uma representação da realidade das relações hoje em dia.
Fora essa mensagem muito dúbia, o filme é até bastante divertido, com personagens cativantes, diálogos que tocam em pontos muito interessantes acerca da arte e do sexo, e performances que demonstram muita da excitação que os próprios atores assumiram sentir ao fazerem este filme. Olivia Wilde completamente excêntrica e devota da sua personagem e Cooper Hoffman (filho do falecido ator Philip Seymour Hoffman) numa intensa atuação, muito ao estilo do seu pai, apesar de, a meu ver, o guião não fazer jus à sua personagem.
Em suma, é um filme que promete mais do que consegue apresentar, com um título que serve sobretudo para chamar a atenção, que não se leva demasiado a sério (no bom sentido) e que acaba por servir para despertar boas conversas sobre arte, sexo, fetiches, sensualidade, atração e até onde nos deixamos levar pelos nossos desejos e fantasias.
Avaliação: 🔥🔥🔥 (3/5)
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