11 de agosto de 2026
A emoção da beleza

Há muito tempo que considero que a beleza não é um facto medível, nem sequer um conceito abstrato, mas sim um sentimento concreto. Porque quando se tenta descrever a beleza de algo, geralmente demora-se uma fracção de segundo a listar parâmetros aritméticos, para rapidamente passarmos a descrever o que aquilo que consideramos belo nos faz sentir.
De modo elementar, a beleza das formas pode provir de noções primárias que temos de equilibro, rácio, simetria, estrutura, tons e texturas. Entre humanos, essa noção pode inferir ainda informações relativas a condições físicas, de saúde e de legado genético, que conseguimos interpretar consoante referências e aprendizagens que tivemos ao longo da nossa vida.
Estas noções de beleza são comuns a todos os animais e provém de milhões de anos de selecção de compatibilidades.
No entanto, a beleza erótica, aquela que atrai, que estimula o desejo, que nos apaixona, que faz despertar as hormonas e nos impulsiona as entranhas, essa provém do nosso âmago e não se descreve por palavras, mas sim com emoções.
É por isso que não gostamos todos da mesma coisa. Porque por muito que alguém tente explicar por que considera algo belo, não vai conseguir convencer toda a gente porque nem todos vão sentir o mesmo impacto emocional.
Isto significa que, quando ficamos presos a convenções de beleza que são criadas por outros, perdemos a capacidade de construir os nossos próprios parâmetros de beleza e englobar, na mesma ideia de belo, por exemplo, a lua e o recreio (como na cena acima).
As nossas emoções é que tornam o mundo belo, não o contrário.
No jogo da sedução e da atração, é quando sentimos em nós a beleza dos outros que mais facilmente percebemos que a nossa própria beleza pode ser sentida por alguém mesmo que nós não a sintamos.
"Quem feio ama, bonito lhe parece", diz o ditado. E este ditado explica exactamente o ponto desta reflexão.
Primeiro, porque reforça que é o "amar" que transforma alguém "feio" em alguém "bonito". Ou seja, é a emoção que cria a beleza, não o contrário.
E segundo, porque usa o verbo "parece". "Parecer" é uma subjetividade, não uma realidade. Isto é, as nossas emoções não tornam realmente algo "feio" em algo "bonito", apenas mudam a nossa percepção. Ou seja, tudo pode ser feio ou bonito, não porque o é, mas porque as nossas emoções o fazem "parecer".
A beleza literal (não o conceito genérico, isso merece outra reflexão) é totalmente subjectiva. Em diferentes tempos, diferentes lugares, diferentes contextos e, acima de tudo, com diferentes interações, a beleza pode evidenciar-se ou ser completamente apagada. Não nos outros, mas em nós. Porque tudo depende muito mais do que sentimos do que dos nossos sentidos.
Aquilo que vemos, ouvimos, cheiramos, saboreamos ou tocamos pode ser belo para uns e horrível para outros. Não porque é "bonito" ou "feio" em si, mas porque cada pessoa o sente de forma diferente, consoante sua sensibilidade particular e os seus instintos emocionais mais positivos ou negativos.
Algo que é considerado belo por muitos pode ser extremamente intimidante (por corresponder a um ideal), como pode ser extremamente banal (exatamente por corresponder a um ideal comum).
Por isso é que, ao longo dos tempos, a noção de beleza, mesmo a mais consensual, se tem alterado conforme as sociedades, a cultura, a arte, a moda e as personalidades mais populares de determinada altura, não só por inclinações ideológicas e estéticas, mas sobretudo por inspirações que todos os dias surpreendem alguém ao virar de uma esquina, numa paixão inusitada, num sonho, numa fantasia, num filme, numa conversa, num momento de sedução ou simplesmente de loucura.
Porque é sobretudo na história de cada coisa que vive a sua real beleza e o seu verdadeiro poder de atração. É através das histórias que construímos emoções dentro de nós, tanto no momento em que sentimos a beleza como na sua preservação dentro de nós ao longo do tempo.
Enquanto os sentidos sentem a beleza no presente (focando-se sobretudo na estética e em tudo o que é potencialmente efémero), as emoções sustentam o sentimento de beleza para o futuro (focando-se sobretudo nas razões, nos princípios, nas histórias, nos comportamentos, na compatibilidade).
Partilho esta reflexão porque esta ideia tem sido particularmente útil nas minhas consultas quando o tema é a autoestima, as expectativas estéticas, a pressão social ou relacional para ir ao encontro (ou exigir) determinados tipos de "ideal de beleza".
Sente-se cada vez mais, sobretudo com a ajuda das redes sociais, a necessidade de corresponder a algo que nunca ninguém sabe muito bem o que é. Há uma insatisfação generalizada que se alimenta a si mesma sem nunca encontrar uma saída. E isso não podia estar mais longe da realidade.
Entre pessoas, há gostos para tudo. Sempre houve. Não há um ideal de beleza. Basta andar na rua e ver que tipos de casais passeiam entre nós. Que tipo de famílias se formam e porquê. Que paixões se manifestam e quem tem relacionamentos realmente construtivos. Uma certeza: não são todos supermodelos, nem é a beleza que define o quão felizes estão.
A beleza é mais que uma ideia, é uma emoção. E mais do que procurá-la apenas no presente (ou no reino dos unicórnios onde tudo é perfeito), há que senti-la através de algo que tem um ponto de partida (a atração), de criação (a construção de uma história que a justifica e a torna complexa) e de continuidade (a aceitação da sua transformação ao longo do tempo).🔥
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