30 de setembro de 2025

Festival Exxxotic (Lisboa)

Festival Exxxotic (Lisboa)

Quando comecei a trabalhar na Hotgold como director de conteúdos em 2009, acompanhei o lançamento dos primeiros Salões Eróticos e o seu desaparecimento depois de alguns anos, com o último a realizar-se no Porto em 2022. Estes salões, que eram sobretudo expositores de marcas, lojas, espaços noturnos e produtoras de conteúdos adultos, tiveram diversos impactos na sociedade portuguesa que, até essa altura, não tinha visto nada semelhante.

Inspirados pelos festivais eróticos de Barcelona e Berlim, os primeiros Salões Eróticos focavam-se sobretudo na mostra de produtos e de shows ao vivo, mas marcaram também a apresentação das primeiras "pornstars" portuguesas, ao lado de outras estrelas internacionais, algo que despertou muita curiosidade no público e nos media nacionais. Para isso, contribuiu também a dimensão dos eventos, que começaram por ser realizados na FIL de Lisboa, com grande investimento em infraestruturas (palcos, salas, experiências tecnológicas), muitos artistas participantes, várias propostas de experimentação (como salas de swing, contacto direto com os artistas e até gravação de filmes no evento), com constantes atrações ao longo de todo o dia.

Essa organização ambiciosa trouxe aos primeiros salões muito público e também muitos meios de comunicação, que se deleitaram com todo o ambiente e puderam entrar em contacto próximo com muitos dos profissionais que, até então, só tinham existido no seu imaginário mais íntimo dos portugueses. Para além disso, o surgimento das primeiras estrelas nacionais como Erica Fontes e Ana Monte-Real, deram ainda mais visibilidade e promoção aos eventos.

Mas tudo isso se foi perdendo ao longo do tempo, tendo passado a organização destes eventos a ser apenas da responsabilidade de produtores estrangeiras e com uma oferta cada vez mais marcada pela indústria pornográfica. Ainda assim, nos últimos anos tentou-se ainda incluir alguma oferta de workshops, debates e palestras, mas num contexto de "tudo ao molho", num ambiente caótico, com música constante, por vezes até várias músicas em simultâneo, e onde o foco era claramente o sexo ao vivo e a venda massiva de produtos, com o entusiasmo do público português a esmorecer e os salões desapareceram.

No entanto, depois de vários anos sem nenhum evento do género, este ano o Festival Exxxotic tentou trazer de volta a Lisboa o conceito de salão erótico, mas desta vez com uma oferta um pouco mais ampla e diversificada.

Num espaço até bastante propício para um evento destes, o Pavilhão Carlos Lopes, no Parque Eduardo VII, o Exxxotic trouxe, para além de performers da indústria porno espanhola (dada a organização ser espanhola* e, diga.-se de passagem, sem grandes opções nesta altura, já que não existe produção adulta em Portugal), trouxe também alguns artistas portugueses, profissionais e amadores, o que contribuiu para um estranho desfasamento na qualidade da oferta, apesar do esforço apreciável.

No entanto, a principal e (quanto a mim) maior qualidade do evento, foi a inclusão de outras dimensões do espectro da sexualidade, como espaços dedicados ao Tantra e ao BDSM, workshops e palestras, mas afastados do salão principal, com possibilidade de ter vários ambientes e contextos. Ainda que com alguma falta de cuidado na organização do espaço geral (o palácio é muito frio e tem áreas muito amplas), notou-se a preocupação para que as pessoas pudessem estar isoladas do barulho dos espectáculos nas suas experiências em grupo e nas conversas/palestras/workshops (excepto, incompreensivelmente, uma tenda de massagens tântricas mesmo no centro do salão principal).

Ainda assim, e tendo apenas visitado o evento no domingo, último dia, onde o público era muito pouco, percebeu-se que a principal falha deveu-se sobretudo à total falta de investimento na caracterização dos palcos, na oferta de comida e bebida, na dinâmica do espaço demasiado vazio e com espectáculos que nem sempre eram atrativos, com grande ênfase no pole dance e no BDSM, Para além disso, a oferta de lojas e produtos também era escassa (apesar de interessante), com apenas duas marcas e três ou quatro artistas presentes. Notou-se ainda a presença de muitos agentes da PSP no espaço, alguns deles visivelmente constrangidos, o que também contribuiu para uma vibe meio estranha de constante policiamento e "cuidado com o que fazes", mas ainda vi uma agente a participar num sorteio de produtos eróticos (o que, só por si, foi bastante erótico).

Isto tudo, com um público português que, nesta altura, já tem termos de comparação com os salões eróticos do passado, e que hoje, já não tão curioso e inexperiente, exige um pouco mais deste tipo de iniciativas.

Em suma, esta foi, quanto a mim, uma boa primeira experiência de tentar fazer renascer este tipo de eventos em Portugal e acredito que tenha despertado o interesse de futuros parceiros (e não apenas sites de acompanhantes) e de profissionais das mais variadas áreas, no sentido de contribuirem para uma próxima edição ainda mais focada em promover a verdadeira amplitude da cultura erótica.

Avaliação: 🔥🔥🔥 (3/5)

*Errata: A organização deste evento é efetivamente portuguesa. Segundo a NiT "O evento foi criado por Sílvia Gil, de 47 anos, natural do Porto. A artista soma duas décadas enquanto artista de BDSM, um conjunto de práticas sexuais consensuais que combinam o poder, o controle e prazer. Além disso, fundou a loja Bdsm4Utopia, em Alfena (Porto), em 2011 e o alojamento temático KinkyRedRoom, em 2016, na mesma localidade."

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