
Este deveria ter sido (talvez) o primeiro livro a ler quando decidi dedicar a minha vida ao estudo, à compreensão e vivência do erotismo, mas só agora, passados muitos anos desde essa decisão, é que me senti preparado para o conseguir ler com sustentação e espírito crítico.
Depois de já ter lido Freud, Jung, Vatsiaiana, Osho, Sade, Miller, Anaïs e muitos outros “pensadores do erotismo” que vieram depois até aos nossos dias, e ainda sem ter tocado em Foucault (é o próximo), George Bataille era a referência que mais antecipava compreender, exactamente por causa deste livro. Antes já tinha lido “A História do Olho” e “As Lágrimas de Eros“, dois livros que me marcaram de formas diferentes (e que em breve farei a sua crítica aqui também), mas que não da forma tão profunda como esperava. O primeiro porque o impacto, tanto do surrealismo como do linguagem crua era algo a que já estava habituado, não só devido à minha formação em história de arte (e predileção pelo movimento Surrealista, de que Bataille fez parte e esta obra também), como por histórias onde a crueza e a crueldade me marcaram para a vida, como “Onze Mil Vergas“, de Apollinaire ou grande parte da obra de Sade; e o segundo porque foi um livro já escrito por Bataille no final da sua vida, e apresenta uma visão muito carregada de cinismo, amargura, decepção e onde a ligação entre o erotismo e a morte ganha uma dimensão demasiado grave e sorturna que não me convenceu.
E é precisamente neste ponto, no paralelismo entre a morte e o erotismo, que eu discordo de George Bataille.
Mas comemos pelo princípio. Uma das coisas que mais me atrai na forma de pensar de Bataille e que, curiosamente, está no título de um artigo escrito dois anos antes deste livro, para a revista Nouvelle Revue Française, intitulado “O paradoxo do Erotismo”, é a noção de que a sexualidade humana, e sobretudo o erotismo, vive de paradoxos. Sempre que vejo alguém a usar esta palavra quando fala destes temas, identifico que essa pessoa sabe exactamente as implicações deste assunto, tanto a nível individual, como social e cultural (Freud também usa bastante nos seus textos).
A compreensão da sexualidade e sobretudo do erotismo, leva-nos por caminhos ambivalentes de comportamentos, ideais, fantasias, mitos, histórias, regras, leis, organizações estruturais de grupos, comunidades, civilizações ou impérios, que se manifestam desde a mais básica necessidade humana, até à transcendência do corpo e da mente, seja na procura do divino, do entendimento do sentido da vida e da morte ou na obliteração de todas as regras e crenças em prol do nada.
Sem me querer alongar muito neste texto, e tentando focar sobretudo no ponto da minha discórdia com a visão de Bataille, é importante referir que, apesar deste livro ter sido lançado em 1957, ele foi escrito “entre guerras”. Bataille foi deslocado para combater na Primeira Grande Guerra, e essa experiência parece ter tido um impacto muito profundo (como não?) na sua visão sobre o que é a existência humana, o sua sobrevivência, a crueldade, a violência, a necessidade de uma ligação extrafísica e sobretudo a relação com a morte ou com a sua iminência.
Num campo de batalha, a morte é, obviamente, a sombra que mais tolda o pensamento a cada instante. Não só a nossa, mas de quem nos rodeia, de quem amamos, por quem damos a vida e de quem dá a vida por nós.
Nesse sentido, assim como Bataille sugere, na segunda parte deste livro, dedicada a diversos estudos sobre diferentes componentes do erotismo, que a escrita de Sade advém da sua solidão e do seu isolamento, considero que a escrita de Bataille e a sua obsessão por esta ligação entre erotismo e morte (que surge ainda mais efetivo em “Lágrimas de Eros”), advém dessa experiência de guerra, de privação, frustração e desilusão com a humanidade.
Isto não retiro, no entanto, mérito ao seu pensamento. A forma como ele defende a sua visão é deveras inspiradora e fundamentada em interpretações lógicas, que eram progressistas na altura e que ainda continuam a ser, e que caminhavam ao lado dos desenvolvimentos científicos e das revoluções artísticas, que recuperavam ideias românticas (no sentido lado do termo), questionavam a religião, exploravam o universo dos sonhos e comparavam o comportamento e a evolução do ser humano com os restantes animais.
Neste contexto social, cultural e psicológico de Bataille, é fácil compreender a linha de pensamento que o levou a ligar o erotismo, que ele define como “o problema dos problemas” à violência, à transgressão, ao interdito, ao sacrifício e à morte. E é compreensível também que exista esse paradoxo, no sentido em que o maior dos desafios de qualquer ser vivo é a sua relação com a morte, com o seu fim e de como ele pode/deve/consegue/aceita lidar com isso. O mesmo argumento pode ser feito (e já se fez) em relação ao humor, por exemplo, em que se considera o humor como a derradeira resistência à morte, no sentido em que dá relevância ao prazer da vida,, obstruindo por momentos a consciência e a certeza da morte.
Mas, ainda que me agrade esta ideia de que, tanto o erotismo como o humor (e não é por acaso que estes dois exemplos são tão emblemáticos, o que reforça o meu comentário) podem ser vistos como o paradoxo perfeito para.a ideia de morte, o meu ponto de discórdia é este: a morte não é o climax da existência humana e muito menos do erotismo.
Explico. A morte é a consequência mais fácil da vida. Se o erotismo tem relevância na existência humana não é, como diz Bataille, apenas devido aos interditos e às transgressões que podem culminar em morte. Isso levaria (como muitas vezes levou) à anulação do erotismo em prol de atos de mero capricho, devaneio, impulso, egoísmo e egocentrismo. Isso, quanto a mim, não é erótico, é apenas a compreensão de que os seres humanos se deleitam em criar as suas próprias regras e a quebrá-las, com as mais absurdas e atrozes consequências.
O erotismo é importante porque o difícil da vida é viver.
Ao contrário dos animais, que também superam obstáculos e também transgridem e também morrem na procura de interação sexual, o ser humano ganhou a consciência de que esse prazer, esse êxtase, não se esgota no vazio do sexo, não “morre” no ato sexual. Superar medos, regras, leis, tabus, perigos, paixões, turbulências e dúvidas morais, não se torna mais válido pelo risco ou pela proximidade da morte, mas sim pela laboriosa e permanentemente arriscada continuidade da vida!
O erotismo é relevante não pela iminência do fim, mas pela eminência do amanhã.
O erotismo existe porque nos sobrevivemos uns aos outros nas nossas interações. Porque vivemos para recordar e para partilhar e para fazer de novo outro dia, outra vez. A morte é a antítese do erotismo, no sentido em que o erotismo é a capacidade humana de reinterpretar as sensações da vida, seja de prazer ou dor, como construções íntimas que se desenvolvem em novas ideias, novas experiências e novas formas de nos relacionarmos. As interdições são a subversão disso. Também úteis, porque somos ser subversivos por natureza (é isso que nos faz questionar o mundo e adaptar e evoluir), mas não determinantes para a felicidade ou plenitude de quem não vê a vida como um obstáculo, mas sim como um conjunto de possibilidades, mesmo que escassas, dia após dia.
Aliás, tal como os humanos conseguem criar estímulos eróticos não apenas sexuais, através de manifestações artísticas, por exemplo, que despertam os sentidos, a imaginação e o desejo por algo que poderá vir, os próprios animais podem ser “eroticamente” atraídos sons, cores, cheiros ou outros estímulos sensoriais relativos ao esplendor da vida e não à previsão da morte.
O continuar da vida e, digo, eu, o potenciar da vida, é que torna o sexo erótico e não apenas visceral e o erotismo não apenas sexual (como, aliás, Bataille também afirma). Viver é, sem dúvida, a condição mais difícil da vida! E viver em relação com alguém, mais ainda. Por isso é que considero o erotismo uma expressão do melhor que a vida tem, e não apenas um capricho de transgredir interdições ou causar disrupções sociais ou nas relações entre as pessoas.
Para terminar, este livro é sem dúvida um marco importante no pensamento e no entendimento do conceito de Erotismo na sociedade ocidental, num contexto anterior às grandes (r)evoluções sexuais que surgiram a partir dos anos 60, e demonstra o brilhantismo e a clarividência de Bataille na análise deste tema, com ideias arrebatadoras e frases emblemáticas como esta:
“A sexualidade física é para o erotismo aquilo que o cérebro é para o pensamento.”
Avaliação: 🔥🔥🔥🔥 (4/5)
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