Monte dos Vendavais (2026)

Lembro-me que, durante muito tempo, quando me perguntavam qual era a história mais romântica que eu conhecia, eu dizia que era esta. Não por causa do livro (que ainda não li), mas por causa do filme de 1992, com Juliette Binoche e Ralph Fiennes. Desse filme, que só vi uma vez, não tenho muitas memórias concretas (lembro-me sobretudo das maravilhosas paisagens naturais e das pequenas figuras humanas em sofrimento e arrebatadas pelo vento), mas fiquei com uma memória emocional profunda. Lembro-me do que senti, da intensidade daquela paixão e da impressão que aquela narrativa me deixou. E lembro-me porquê. Porque foi a primeira vez que percebi o quanto as escolhas que fazemos podem definir o trajeto da nossa vida. Ao contrário do que sentimos quando somos jovens, em que achamos que o mundo toma decisões por nós (porque vivemos protegidos pelos nossos pais e família) e que por isso não temos nenhuma responsabilidade sobre elas ou sobre as suas consequências, quando finalmente percebemos que muito do que nos acontece é porque nós assim o queremos e procuramos, subitamente dá-se uma transformação na forma como vemos o mundo, os outros e a nós próprios.

Isto é ainda mais particularmente relevante no universo afetivo e erótico.

Se nas outras áreas da vida (trabalho, atividades, lazer, etc) as escolhas erradas podem ter consequências concretas (desemprego, falta de dinheiro, lesões, etc) e podem ser alteradas, tratadas, resolvidas ou abandonadas, no relacionamento connosco e com os outros, seja em círculos familiares, de amizades, românticos ou sexuais, as consequências das escolhas erradas são mais íntimas, profundas e duradouras.

Em particular nesta história, as escolhas levam os personagens a diversos pontos de aproximação e afastamento, assim como de transformação e tensão extraordinariamente intensas, demonstrando como por vezes as saídas que parecem mais fáceis para determinados problemas são precisamente aquelas que os transformam em problemas ainda maiores.

Mas vendo hoje esta nova versão do “Monte dos Vendavais”, realizada por Emerald Fennell (do incompreendido mas brilhante “Saltburn” e do intenso mas deprimente “Promissing Young Woman”), a história parece ser outra.

O Fetiche de Eros

Num mundo atual onde o tempo corre mais rápido, porque estamos cada vez mais distraídos com inúmeros estímulos sensoriais, em que não damos pelo sol a nascer nem a poisar, em que o tempo de espera ou de solidão é sempre na companhia de scrolls infinitos e de novos desconhecidos que nos entretêm com os seus conteúdos originais ou artificiais, é fácil perceber que o tempo para aquilo que se chamava de “romance” já passou. A própria expressão “amor romântico” já conseguiu ganhar uma conotação negativa suficiente para ser considerado chato, aborrecido e até opressivo. É o que dá tornar as emoções políticas.

Nesse sentido, o que antes era visto como algo precioso e merecedor do nosso tempo, hoje é apenas um ato “pro-form”, em que sentimos emoções mas não as usamos muito para não as gastar, vá-se lá saber se vamos precisar delas para outros fins ou outras pessoas que possam ainda surgir no horizonte.

Assim, é nesse contexto que um filme destes se enquadra perfeitamente. Ao focar a história num fetichismo latente, seja de incesto, de adultério ou de dominação e submissão ativas e desejadas, aplica-se mais um estímulo sensorial direto e evidente para quem vê, mesmo que às custas de transformar uma grandiosa e complexa história basicamente (como esta criadora demonstrou de forma muito engraçada) num sex toy visual. O que eu até compreendo e me diverte, sinceramente, porque se há coisa que hoje em dia estamos a fazer com cada vez mais frequência (e até qualidade) é a integrar o erotismo contemporâneo em produções de época (veja-se o sucesso de Bridgerton).

A minha reação dúbia em relação a este filme prende-se apenas e só porque no de 1992 eu fiquei completamente assoberbado pela relação entre os protagonistas Catherine e Heathcliff. Toda a intensidade romântica e erótica vive da tensão da sua relação, da vontade contida e do desespero da impossibilidade da sua paixão devido aos constrangimentos familiares, financeiros e sociais. Mas nesta versão, quem rouba todo o protagonismo é a magnificamente tresloucada Isabella, irmã de Edgar (com quem Catherine escolhe casar em vez de Heathcliff).

É de Isabella as cenas mais marcantes e eróticas deste filme. Desde a obsessão com a beleza de Catherine, ao livro da amizade, à sua submissão a Heathcliff e toda a sua displicência consciente e desafiadora daquilo que se espera de uma mulher num tempo e numa situação destas.

Claro que nem todos os momentos eróticos se centram nela, mas enquanto nos personagens principais (Catherine e Heathcliff) tudo se torna mais óbvio (a nudez, os ovos na cama, o quarto com paredes de pele), é com Isabella que este filme ganha um tom superlativo na sua ironia e subversidade.

E oculto por tudo isto, resta o pobre Edgar com quem Catherine casa por mero interesse, o homem honrado e apaixonado que (talvez por isso) é usado e explorado, e que se torna a antítese do erotismo com o seu romantismo, nesta história onde só há espaço para uma das faces de Eros, o deus do amor e do sexo.

Em suma, mesmo habituado a ver todos os tipos de erotismo representados nas mais diversas obras culturais, sinto que por vezes se tentam colar universos que se contaminam e deturpam mutuamente na busca do estímulo em detrimento das emoções mais profundas e marcantes. Mesmo quando ambos (estímulo e emoção) tocam o público, e o erotismo tem sem dúvida o poder de tocar com mais intensidade, não me parece positivo quando um se sobrepõe à custa do outro.

Não temos de ser todos super românticos ou super ninfomaníacos (e sim, todos somos um pouco de ambos). mas há histórias que têm impactos diferentes não apenas pela forma como são contadas, mas pela força da sua mensagem, pela génese da sua estrutura, da sua linguagem, da sua simbologia e, acima de tudo, dos seus mistérios. Porque quando se conta numa história nem tudo tem de ser dado ao público. As histórias tornam-se mais nossas quanto mais formos levados a pôr algo de nós mesmos naquilo que nos é dado a conhecer e a refletir.

Avaliação: 🔥🔥🔥🔥 (4/5)

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