O Método Karezza (1931)

Karezza” vem do italiano “carezza”, que significa “carícia”. Tomei conhecimento deste livro quando, na altura em que estava a fazer a formação em Tantra, um amigo de longa data mo recomendou como sendo um “tantra ocidental.” E é quase isso.

Com o título completo “The Karezza Method – Or Magnetation: The Art of Connubial Love” (“O Método Karezza – Ou Magnetização: A Arte do Amor Conjugal”, tradução livre, sem edição em português), este livro escrito pelo anarquista e teórico sexual J. William Lloyd em 1931, mais do que os manuais do “Kamasutra” ou “Jardim Perfumado”, teve um impacto profundo em mim, exactamente porque recontextualizou uma visão muito particular da sexualidade com um discurso e contexto mais reconhecíveis e atuais.

Uma ideia nascida entre guerras

Há uma dimensão histórica nesta obra (e neste pensamento) que me fascina particularmente e que não vi muito mencionada nas críticas que li.

Esta é uma prática que tem raízes antigas. Modelos orientais milenares já reconheciam no sexo uma dimensão espiritual. O Tantra clássico, por exemplo não é, como a cultura popular atual tenta fazer crer, uma prática meramente sexual, composta apenas por técnicas de massagens ou posições complicadas. É toda uma visão do mundo e dos relacionamentos onde o corpo é sagrado, onde a energia sexual é vital e onde a união física pode ser uma porta para estados de consciência transcendentais.

Mas o Karezza (ou “coitus reservatus“) é, como o meu amigo disse, um tantra ocidental. Nasceu numa época específica, num contexto específico: a América do século XIX, em plena Revolução Industrial. Foi primeiro John Humphrey Noyes quem, em 1844, desenvolveu o conceito a que chamou “continência sexual masculina” na Comunidade Oneida, uma comunidade utópica que praticava o amor livre. Noyes chegou ao seu método por razões muito pessoais: a sua mulher tinha tido cinco gravidezes nos primeiros seis anos de casamento, quatro delas sem sucesso. Por isso, numa altura em que havia poucos recursos médicos, o que ele descobriu foi, à sua maneira, um novo acto de amor.

Inspirada pelas ideias de Noyes, Alice Bunker Stockham, a quinta mulher a tornar-se médica nos Estados Unidos, publicou em 1896 o livro “Karezza: Ethics of Marriage” (“Karezza: Ética para o Casamento”, tradução livre, sem edição em português), cunhou o termo e tentou democratizar a prática com intenções muito concretas: evitar gravidezes indesejadas, sexo forçado no casamento e infidelidades ou divórcios. Mas aos 72 anos, foi condenada por distribuir “literatura imprópria”. O Vaticano proibiu expressamente esta prática em 1951 por servir como “método contraceptivo”.

Mas neste livro de J. William, a ideia passa a ter uma componente mais holística, no sentido comportamental, social, cultural e espiritual. Publicado depois da primeira Grande Guerra, apanhava o mundo a sair de uma carnificina industrial sem precedentes e a caminhar, sem o saber, para outra. Nesse contexto, um livro que falava de sexo lento, de amor calmo, de dois corpos em paz um com o outro, era mais do que um manual erótico, era um ato revolucionário. Era uma recusa da violência, incluindo a violência da pressa, da conquista forçada e das “explosões” orgásmicas.

A tirania industrial da métrica

Após a revolução industrial as relações humanas mudaram. Não só pela mudança nos estilos de vida, com mais recursos, mais exigências e uma organização mais estruturada das sociedades, mas sobretudo pela forma como começámos a mecanizar e a quantificar todas as componentes do dia a dia.

Uma dessas imposições intansigentes foi a standardização métrica.

Ao passarmos a ter uma rotina industrializada, as exigências quantitativas começaram a ter uma importância não só de dimensão mas também de tempo. O tempo era agora medido conforme os horários de trabalho fabris, as distâncias e os transportes, os números comerciais e estatísticos, as despesas e os proveitos.

A quantificação, a temporização e o lucro passaram a fazer parte não só do quotidiano laboral, mas também do pessoal e relacional.

E foi com base nesses critérios que surgiram também as ciências sociais e humanas, nomeadamente a psicanálise e a sociologia, assim como os grandes movimentos políticos e sociais. A partir desse momento, passámos a tratar os comportamentos como estatísticas.

Hoje, o orgasmo tornou-se também uma estatística. Lemos com regularidade que as mulheres têm menos orgasmos do que os homens, que existe um “orgasm gap” que é urgente colmatar e que a igualdade de género passa não só pelo direito mas pelo “dever” de ter tantos orgasmos como o outro. É uma conversa importante, sem dúvida, mas há qualquer coisa nesta obsessão com a igualdade métrica que não bate certo.

Porque o que é que está a ser medido, afinal? Contrações musculares, picos de dopamina, descargas neurológicas. Tudo isso é real e até pode resultar de sensações de prazer, mas reduzir o erotismo a uma métrica de orgasmos é quase como avaliar uma boa refeição pelo número de arrotos. Focamos nas consequências em vez de na experiência.

E há uma ironia curiosa nesta contagem: muitos dos orgasmos masculinos que entram nas estatísticas não são desejados, são involuntários. Acontecem por reflexo, por acidente fisiológico, de forma “precoce”, sem que necessariamente correspondam a um pico de prazer emocional ou de conexão com o outro. Contam, sim, mas contam para quê?

Talvez por ser homem, J. William Lloyd percebeu isto e, ao contrário da intenção médica de Alice, decidiu transformar a Karezza num método de relação sexual onde a ejaculação era suprimida, não por motivos de prevenção, mas sim para proporcionar uma maior capacidade de conexão afetiva e erótica entre os casais, retirando a pressão do orgasmo.

Aliás, neste seu livro, ele argumenta até que o orgasmo pode ser, paradoxalmente, um “aniquilador do amor”. A descarga súbita pode deixar um rastro de indiferença, de lassidão, de ligeira melancolia. E isso é de uma clarividência extraordinária. Porque, muitas vezes, é isso que faz com que, de um momento para o outro, a magia numa relação íntima se desvaneça, o desejo se dissolva e todo o envolvimento erótico se torna desnecessário quando o objetivo primordial já foi atingido.

O que o método Karezza propõe não é a negação do prazer, é a sua amplificação. É trocar a explosão pelo fogo lento, é perceber que o que alimenta a ligação entre dois corpos não é o clímax, mas o processo, o caminho, sem um objetivo concreto ou pressa de lá chegar.

O prazer que um casal procura dar um ao outro não É para ser medido, é para ser sentido.

O importante nunca é imediato

Hoje, cada vez mais vivemos a vida a correr. Quase todas as nossas necessidades são satisfeitas num instante. Manda-se vir comida com um clique, consomem-se conteúdos em scrolls infinitos e as relações começam e acabam com um deslize no ecrã. A atenção tornou-se um recurso escasso e o sexo não escapa a esta lógica de consumo rápido.

Mesmo num texto com quase cem anos, J. William Lloyd escreve sobre isto com uma elegância desarmante: “O artista Karezza sublima uma parte de sua paixão sexual numa expressão sentimental mais refinada, intelectual, poética e doce, impedindo-a, assim, de atingir aquele ápice de intensidade local que exige uma descarga explosiva.. (…) Assim é Karezza para o orgasmo. É arte, intelecto, moralidade e esteticismo no prazer sexual, em vez de apetite grosseiro e imprudente.”

Parece nostalgia romântica mas é na verdade uma compreensão profunda da fisiologia humana e do erotismo. Esta ligação entre o intelecto, o sensorial e o transcendental através do contacto prolongado no tempo, da atenção ao corpo inteiro (e não apenas aos genitais), da respiração em sintonia com alguém, do olhar firme e presente, da arte e da criatividade: tudo isto estimula a produção de oxitocina, a hormona do amor, do vinculo e da empatia construtiva.

Karezza é, no fundo, uma prática sobre tempo, atenção e presença. Talvez os bens humanos mais raros do século XXI.

J. William descreve sessões que podem durar horas. Horas de carícias, de palavras, de penetração quieta sem movimento, de dois corpos que aprendem a existir juntos sem precisarem de ir a lado nenhum. Onde o orgasmo não é o mais importante e pode até nem fazer parte da equação. 

Hoje estes são conceitos radicais, alternativos, reservados a experiências “tântricos” ou fora do comum. Quando aplicados aos homens são até chamados de “retrógados”, “conservadores” ou “sem sentido”. Mas a mensagem que se pretende passar não é que o orgasmo não é importante. É exactamente o oposto. Por ser importante, é que merece ser valorizado e não desperdiçado. Sem pressa nem métricas, mas sim com tempo e com dedicação.

Avaliação: 🔥🔥🔥🔥 (4/5)

Despertou-te interesse? Não existe edição em português, mas podes ler aqui a versão original em inglês!

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