Inteligência Erótica (Livro)

Este foi o livro sobre Erotismo que esperei toda a minha vida para ler. Nunca, dos vários que já li sobre este tema, o vi ser tão bem abordado, enunciado e apreciado, através de um pensamento clarividente, coerente e focado na sua real importância. Ao contrário de muitas teorias anteriores, o Erotismo tem aqui finalmente uma concretização real e adaptada aos nossos tempos.

A Inspiração de Esther

A minha paixão (sim, vou designá-la assim) pela psicoterapeuta Esther Perel já vem de há muito tempo. Posso mesmo dizê-lo que foi desde a primeira vez que a ouvi (acho que nesta TED Talk). A clareza das suas palavras na interpretação daquilo que eu considerava (e considero) ser o Erotismo, foram um tónico que, desde aí, serviram muitas vezes de inspiração na minha caminhada.

Apesar de estudar, seguir e até conhecer pessoalmente diversos psicólogos, sexólogos e terapeutas de vários cantos do mundo, esta mulher belga, judia, filha de sobreviventes do Holocausto, criada nos EUA dos anos 60/70 e sem formação especializada nesta área (e ainda bem, porque o Erotismo não é ciência), foi de alguma forma iluminada com uma visão analítica superlativamente sagaz das dimensões, nuances e paradoxos relativos ao universo erótico.

Neste seu primeiro livro, lançado em 2006, os princípios que regem a sua visão são explicados com uma desarmante clareza e, acima de tudo, mais curiosidade que certezas. E isso torna-se ainda mais extraordinário por, mesmo numa primeira obra, não ceder à tentação de culpar homens ou mulheres nas suas observações. Isto porque, também ao contrário da sexualidade, o Erotismo é um campo onde estão a valer demasiadas variáveis para se cair em dicotomias e discursos divisivos simplistas.

Porque é no universo erótico que se compreende a verdadeira dimensão daquilo que move o ser humano em todas as suas capacidades racionais e emocionais, superando constantemente barreiras físicas, sociais, legais e até morais.

Inteligência Sem Cativeiro

Começando pelo título, que no original é possivelmente o pior título para uma obra destas (“Mating in Captivity” – literalmente “Acasalar em Cativeiro” – e que na tradução brasileira ficou “Sexo em Cativeiro”, um título que nunca me iria fazer comprar este livro), alguém teve a lucidez em Portugal de traduzir para “Inteligência Erótica” (subtítulo do último capítulo do livro), E se há uma ideia que se ajusta à minha causa de promover uma “Cultura Erótica” é exatamente considerar que o Erotismo é uma forma de inteligência (e não só, mas já lá vamos).

Em referência ao título original, Esther perde algum tempo (os primeiros 3 capítulos) a justificar porque é o “cativeiro”, ou o conceito de viver com alguém em exclusividade, tem causado ao longo dos tempos diversos problemas e desentendimentos entre os casais. Essa é, aliás, uma das principais ideias que mantém no seu discurso até hoje, a de vivermos em constante conflito entre a ansiedade por aventura e o desejo de conforto, e que cada vez mais nos faz exigir ter o melhor dos dois mundos numa só relação, o que para muita gente pode ser deveras desafiante, tanto para quem procura como para quem tem de corresponder.

Com ideias claras e exemplos concretos de casos que passaram pelo seu consultório, Esther descreve como é possível gerir relações e expectativas através de algumas estratégias, negociações e, acima de tudo, da honestidade e da compreensão sobre as resistências e limitações das pessoas nas suas inseguranças e explorações, sobretudo quando se sente amor por alguém.

Democracia vs Sexo Escaldante

A partir do quarto capítulo entramos no universo dos jogos de poder e é aqui que encontramos, a meu ver, a primeira grande provocação. Algo que me surpreendeu não só pela ousadia mas pela assertividade de expor uma ideia que poucos têm coragem de dizer em voz alta nos muitos livros que se escrevem sobre sexualidade:

“Desejo e igualitarismo não seguem as mesmas regras”

A magnitude da compreensão desta realidade prende-se com uma simples noção: sexo e erotismo não são a mesma coisa. Ou seja, realidade e fantasia não são a mesma coisa. As regras que gerem a nossa vida não são as mesmas que gerem a nossa imaginação, E compreender isso é fundamental para que as dinâmicas eróticas possam ser representadas e desfrutadas sem os constrangimentos do mundo real.

Numa altura em que o sexo está cada vez mais politizado e policiado, o universo erótico é hoje talvez a última fronteira do prazer livre. E ser uma mulher a assumi-lo, em plena vaga feminista, é ainda mais extraordinário, sobretudo sem recorrer ao subterfúgio perverso de condenar esta ou aquela facção pelo estado a que as coisas chegaram.

Falar sobre Erotismo é falar sobre o que de mais positivo e diverso a sexualidade pode ter e ser. Falar sobre Erotismo é compreender a complexidade humana e a sua diversidade de forma construtiva e plena. É por isso que falar em Erotismo é falar acima de tudo de paradoxos. Há coisas horríveis que nos excitam, há zonas desconfortáveis que nos despertam prazer, há dinâmicas que nos parecem completamente descabidas e ridículas e que nos conseguem surpreender os sentidos e as emoções.

Tudo o que não é possível, viável ou desejável no mundo da sexualidade pode sê-lo no universo erótico.

É nessa dimensão que subsiste a curiosidade, o desafio, a experimentação, a incerteza e até a dor, a violência e o perigo, físico ou emocional. É nesse patamar que colocamos à prova muitas das nossas inseguranças e inibições, sobretudo se o fizermos de forma segura e consciente. É disso que se trata quando conjecturamos cenários, definimos regras, negociamos limites, controlamos consequências ou simplesmente aprendemos a confiar em alguém e em nós mesmos. É essa a grandiosidade desta ideia e a sua demonstração nestes capítulos é deveras importante e fascinante.

Erotismo a Quatro Dimensões

Outra parte do livro bastante relevante e surpreendente é o capítulo referente à paternidade, um dos principais desafios para as relações atuais. Aqui, mais uma vez, Esther consegue tocar nos pontos mais importantes na perspectiva erótica, tanto nas causas como nas soluções, sobretudo quando menciona a impacto que a própria educação das pessoas tem na forma como lidam com os filhos, na diferença de que a parentalidade tardia dos tempos modernos na implica na concepção e na vivência da liberdade sexualidade e do prazer, e de como os papéis de género (e as suas alterações) influenciam a dinâmica sexual dos casais, tanto naquilo que exigem como naquilo que estão dispostos a retribuir.

Finalmente, os últimos capítulos são sobre a importância das fantasias, sobre o repensar a ideia de fidelidade (que se tornou o principal tema do seu segundo livro “(In)Fidelidade”) e de como se pode resgatar o gozo erótico nas relações de longa duração. Desses capítulos, todos excelentes também, as ideias principais a retirar prendem-se com a importância de saber partilhar os universos íntimos (fantasias) com compreensão e empatia mútuas; o assumir a dificuldade latente da insegurança possessiva (monogamia) em busca de uma nova estabilidade emocional e afetiva (algo que hoje se está a testar em grande escala com as relações abertas); e a capacidade de devolver o lado lúdico e erótico ao sexo, desprendendo-o das amarras políticas e sociais que, apesar da evolução dos tempos, condicionam cada vez mais a visão que as pessoas têm da vida e do prazer em geral, levando-as a procurar experiências diferentes fora das relações em vez de experimentarem coisas diferentes dentro delas.

Curiosidade e Prazer

Se eu costumo sublinhar os livros que leio sobre sexualidade e erotismo, este está praticamente todo sublinhado. É uma obra magnífica, que não é perfeita, nem completa, nem tem de ser (eu acrescentaria ainda um capítulo sobre criatividade), mas que abre muitas portas e revela muitos horizontes de pensamento claro e pragmático sobre um tema que é demasiado importante e amplo para raramente ser referido em livros e debates sobre sexualidade.

Avaliação: 🔥🔥🔥🔥🔥 (5/5)

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  1. Obrigado pelas palavras 🙂 Dos 7 livros em que se baseia, a primeira temporada foca-se nos primeiros dois e a…

  2. Obrigada! 🤓 Já te disse que quando for grande vou escrever assim? Receio que se venha a estragar a coisa…