Antes de começar, é preciso mencionar desde logo que a tradução do título para português de Portugal não é a melhor. “Die my love” não é “Mata-te, Amor”, mas sim “Morre, meu amor” (ou na tradução brasileira, “Morra, Amor”). E esta diferença é mesmo importante nesta história. O desejo que alguém se mate não é o mesmo que alguém morra. E neste caso, a morte é mesmo mais ampla que apenas deixar de viver. O desejo é que que o próprio amor morra (o amor próprio, o amor pelo outro e o amor do outro), porque é esse é o insustentável peso desta história.
Inspirado no romance homónimo de Ariana Harwicz (o primeiro da “Trilogia da Paixão”, seguido de “A Atrasada Mental” e “Precoce”), é realizado pela cineasta inglesa Lynne Ramsay (de “Temos de Falar Sobre Kevin”).
(Atenção, spoliers!)
Este é um filme com uma intensidade inesperada, sobre um casal que se muda para uma zona isolada por causa do trabalho do marido e que, após o nascimento do filho, a mulher entra numa depressão pós-parto que a leva à literalmente à loucura.
De uma crueza e com uma entrega desarmantes, sobretudo por parte da Jennifer Lawrence (e a presença marcante da Carrie, perdão Sissy Spacek), o filme não tem pudor em demonstrar como a solidão e o abandono têm repercussões na sexualidade (e como isso liberta o lado primitivo, animal), focando-se na altura da gravidez e pós-parto, em que o corpo feminino lida com as maiores alterações físicas e fisiológicas.
Ao longo de todo o filme, vemos uma mulher a ser gradualmente consumida por uma insatisfação que se reflete numa ânsia sexual, extraordinariamente representada através de momentos simbólicos (o rasgar das paredes, a chuva de confétis brancos, a natureza selvagem, o cavalo negro…) e de momentos de total nudez, do corpo e do espírito.
Super corajoso e sobre tema muito relevante (a sexualidade feminina), a história só peca, a meu ver, pela propositada desistência final.
Este é um casal que, apesar das dificuldades e dos desafios, se mantém coeso, com um marido que tenta ao máximo apoiar a mulher, que controla as suas próprias emoções mesmo nos momentos de maior caos e que, por fim, parece conseguir encontrar, em conjunto com ela, um ponto de equilíbrio para resgatar a família daquela situação.
Mas, como alguém disse um dia, as histórias são cómicas ou trágicas dependendo do momento em que acabam.
E este é um filme que acaba tragicamente só porque demora mais cinco minutos do que precisava.
A sensação que se fica é que alguém decidiu que uma história destas não podia ter um final positivo (algo que poderia ser útil para muitas mulheres que precisam de histórias corajosas sobre estes temas para se poderem rever e motivar) só porque a tentação de queimar tudo o que se tinha construído até ali (literalmente) foi maior.
Nesta tragédia antecedida por um momento extraordinário de luz, perde-se toda a esperança só pelo capricho de um final mais emocional.
Numa altura em que já não se acredita em finais felizes na realidade, já nem no cinema se pode sonhar com isso, mesmo quando tudo é bem construído nesse sentido. Assim, em vez de inspiração, a decepção torna-se ainda maior.
Avaliação: 🔥🔥🔥🔥 (4/5)

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