
Anaïs Nin sempre foi para mim uma referência não só literária mas também filosófica no universo erótico. A sua expressão mais famosa “O erotismo é uma das bases do conhecimento de nós próprios, tão indispensável como a poesia.” ressoou comigo desde cedo, primeiro porque foi através das artes que cheguei ao erotismo, e segundo porque, tal como ela, não vejo o erotismo como resultado do conhecimento “clínico” do sexo, mas como uma expressão subtil, emocional, intelectual, criativa e abstrata da sexualidade, tal como a poesia ou qualquer outra manifestação humana/artística.
Ainda assim, o primeiro livro que li dela “Uma espia na casa do amor” não me cativou. Talvez por ter lido demasiado novo, talvez por tocar em temas complexos para alguém que ainda está a construir os seus princípios (uma mulher que o engana o marido para procurar outros homens) ou talvez porque tudo isso é descrito através de uma escrita elevada, sedutora, lírica e poética, algo que não se adequa a quem ainda não tem arcaboiço intelectual e cultural para compreender todas as nuances de uma história adulta. Mas deixarei a análise desse livro para outro texto.

No caso da “Delta de Vénus”, não foi o livro que me atraiu primeiro. Antes de sequer saber que os meus pais o tinham no meio da sua eclética biblioteca (até porque o título “Vénus Erótica” era diferente, traduzido da edição francesa e não da inglesa original – foto da edição acima), foram dois filmes que me despertaram a curiosidade.
O primeiro foi o filme de 1995 “Delta de Venus” de Zalman King (realizador de “Orquídea Selvagem”) porque, mais do que se basear nas histórias do livro, aborda o contexto em que as histórias foram escritas.
O segundo filme, foi “Henry & June” de Philip Kaufman (realizador de “A insustentável leveza do ser” e “As penas do desejo”) de 1990, onde se mostra a origem da relação entre Anaïs e Henry Miller (e a sua mulher June), incluindo também esta altura em que escreviam juntos.
A grande particularidade deste livro é que os textos foram escritos na década de 40, no início da Segunda Guerra, por encomenda de um misterioso colecionador de arte erótica, que terá procurado Anaïs através do seu editor. Devido aos constantemente problemas financeiros, a escritora e os seus colegas Henry Miller e George Barker aceitaram ser contratados para criar os mais variados enredos eróticos, de modo a satisfazer as fantasias de alguém que não conheciam e que lhes dava ordens e indicações sobre como e o que deveriam escrever.
Por esta razão, no prefácio deste livro, composto por entradas do seu diário, Anaïs dizia sentir-se como “patroa de uma casa de prostituição literária”. Uma conceito até bastante interessante, a meu ver.
Antes de entrarmos nas histórias propriamente ditas, o livro (publicado postumamente) inclui também um post-scriptum onde Anaïs refere que, enquanto escrevia estes textos, percebeu que a literatura erótica tinha sido, durante séculos, dominada pelo olhar e pela linguagem masculinas, o que lhe dava a possibilidade de mostrar a diferença do seu ponto de vista feminino.
Mas não só.
A presença obscura do “colecionador” invisível e exigente, galvanizou a imaginação e a criatividade de Anaïs e dos seus colegas, para que, segundo as suas palavras, “homossexuais escrevessem como se fossem mulheres; os tímidos descressem orgias; os frígidos, desenfreadas embriaguez; os mais poéticos caíssem na bestialidade e os mais puros na perversão. (…) Contávamos uma história e os outros tinham de adivinhar se era verdade ou mentira.”
É então neste ambiente de pura revolução intelectual que muitos destes textos foram escritos. E nota-se.
Mesmo apesar da intenção de mostrar uma perspectiva feminina do erotismo, os primeiros textos tocam em temas pesados e complexos, como pedofilia, necrofilia, incesto, violação, doenças e drogas, para depois se dedicar a temas como a bissexualidade, o hermafroditismo, fetichismo e só depois deixar de se focar nos temas para se passar a focar naquilo que realmente interessava: a “poesia” (não em termos de formatação poética, mas em termos de descrição lírica e plena de figuras de estilo).
Uma das exigência do “colecionador” que mais incomodavam Anaïs era “ponha de parte a poesia, concentre-se no sexo.” Talvez por isso os primeiros textos, apesar de algum lirismo, se foquem em cenários e ações mais chocantes e disruptivos. Talvez fossem resultado da sua revolta ou dos desafios lançados nas tais “orgias criativas” do grupo de artistas onde Anaïs se inseria. Mas a verdade é que, pela sua qualidade literária, esses temas eram abordados com uma leveza ainda mais desconcertante do que se fossem escritos de forma mais crua e sem floreados.
Ainda assim, depois de ultrapassarmos essa primeira etapa, os contos tornam-se mais longos, mais lânguidos, mais demorados e descritivos, com personagens que procuram o lado positivo do prazer, onde a ânsia é trocada pela vontade, a intransigência pela exigência, o devaneio pelo desejo, onde os cenários e os encontros se prestam à reflexão, ao deleite e ao êxtase sublime, constante, pelo de novidade e entrega.
Um livro que começa com um “amargo de boca” mas que, no fim, nos deixa a salivar por mais.
Avaliação: 🔥🔥🔥🔥 (4/5)
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